O luxo, o lixo e a luxúria

11012696_448658425297762_1990047995707313086_n Assim como muitos termos da nossa linguagem, a palavra “luxo” mudou de sentido ao longo do tempo.

Do latim “lux”, luxo significa aquilo que ilumina, que reluz. O significado contemporâneo da palavra passou a ser, no entanto, ostentação, enquanto, na verdade, luxo é descobrir um espaço só seu.

A massificação da perfumaria incentivou casas de fragrâncias a apelarem para os limites do preço: o designer inglês Clive Christian lançou em 2001 um perfume de 50 ml a 865 dólares, depois tendo sua estratégia foi imitada por outros.

Voltando ao significado original de luxo, será o mais luxuoso comprar um perfume apenas porque ele beira quatro dígitos? Ou seria descobrir o perfume que mais combine com a sua personalidade em todas as suas nuances? Uma pessoa que entende o real significado de luxo sabe que, mais do que pagar caro porque é exclusivo, luxo é entender e satisfazer as necessidades particulares dela, adquirindo um produto diferenciado. É claro que no final isso pode custar caro, mas a motivação inicial não é a ostentação.

Um olfato apurado em si é um luxo – toma-se muito tempo e dedicação para saber usá-lo, e não está à venda.

O aumento exponencial de lançamentos ano após ano torna cada vez mais difícil a separação do que é luxo, lixo ou luxúria.

Fazendo uma retrospectiva da história mais recente, podemos dizer que o grande divisor de águas foi o surgimento das lojas de departamentos, que nos anos 70 transformaram perfumes em blockbusters, agrupando-os na mesma seção. Assim, grifes passaram a competir cara a cara e foram forçadas a reduzir seus preços, aumentando seus volumes em contrapartida.

A massificação inspirou a criação de casas independentes como L’Artisan, Annick Goutal, Creed, Acqua di Parma e Penhaligon’s, todas propondo a volta da TRADIÇÃO e REQUINTE das composições do passado. 

Entre 1990 e 2010 novos nichos se estabeleceram com diferentes focos: ABSTRAÇÃO e COMPLEXIDADE (Serge Lutens, Nicolaï, Frédéric Malle, Tauer e Histoires de Parfum); MINIMALISMO e ORIGINALIDADE (Comme des Garçons, Le Labo, État Libre d’Orange, Juliette Has a Gun e Bond No. 9); LUXO e OPULÊNCIA (Roja Dove, Clive Christian, By Kilian, Xerjoff e Puredistance); e GRIFE e EXCLUSIVIDADE (Guerlain Art et Matière, Chanel Les Exclusifs, Armani Privé, Hermessence e Tom Ford Private Blend).

A partir de 2010, com a explosão das redes sociais, o nicho indie surgiu simbolizando OUSADIA e POSSIBILIDADE. Tornou-se muito mais fácil criar, divulgar e distribuir um novo perfume. Assim, as milhares de fragrâncias lançadas a cada ano nos colocam entre o lixo e a luxúria – se por um lado sabemos que 99% não têm a qualidade esperada, por outro acabamos recorrendo ao apelo visual e ao storytelling das grifes para chegarmos mais perto do 1% que realmente faz diferença.

O olfato apurado se tornou o maior luxo de todos, além, é claro, da habilidade de se fazer buscas no Google e encontrar o melhor custo e logística para chegarmos próximo ao perfume.

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