A confusão do natural versus sintético

NaturalSintéticoA perfumaria é complexa – justamente aí é que reside seu charme. Dentre tantos desentendimentos, está o do natural versus sintético. A maior parte das pessoas usa a analogia da nutrição: quanto mais natural, menos danoso à sua saúde e melhor o aroma (imagine um simples suco de laranja espremido na hora e outro de caixinha). Na perfumaria é o contrário. Os ingredientes utilizados contêm, in natura, alérgenos que podem causar dermatites e até câncer.

Pensando nisso (e também na economia de dinheiro, tempo e energia na extração) e incentivados pelos ativistas ambientais, cientistas passaram a sintetizar as matérias-primas no final do século XIX. Nascia aí a perfumaria moderna, dando um salto quântico em direção a um universo de infinitas possibilidades.

O movimento hippie / new age iniciado na Califórnia nos anos 60/70 trouxe à tona diversos temas importantes, entre eles os direitos dos animais e o meio ambiente. As intenções eram idôneas e legítimas, mas a falta de conhecimento criou mitos poderosos. Acreditava-se que o raro e caríssimo âmbar gris poderia ser obtido caçando baleias cachalotes – uma inverdade, já que o âmbar gris tem seu odor característico somente depois muito tempo flutuando sobre o mar e curado pelo sol, água e ar. Por outro lado, o cobiçado musk do veado almiscareiro só pode ser obtido através da caça e abate – prática hoje banida.

Há também o mal-entendido de que os sintéticos usados em perfumes são danosos à saúde. Na verdade, houve um período em que alguns químicos aromáticos cancerígenos eram utilizados, entretanto eles foram retirados da paleta de ingredientes do perfumista há décadas. Hoje tudo é estritamente controlado pela IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias).

Outro mito é de que os fabricantes usam sintéticos apenas para reduzir custos. Isso pode ser verdade em muitos casos, mas sintéticos nem sempre são uma opção barata – os que chegam muito próximo de matérias-primas raras e de difícil extração têm custo altíssimo.

As maiores vantagens no uso de sintéticos são, na verdade, a segurança (fabricados seguindo padrões estritos) e a estabilidade (não variam entre lotes como os ingredientes naturais). No processo de síntese, componentes perigosos são desconsiderados e, quando essenciais, substituídos por moléculas sintéticas. Imagine um perfume aquático que busque reproduzir a sensação de estar de férias na praia. Logo vem à cabeça um aroma marinho e tropical, ao mesmo tempo refrescante e cremoso (protetor solar). Por meio de sintéticos, um perfumista pode compor uma fórmula que chegue muito próximo ao aroma natural de praia, porém este inclui também componentes indesejados como algas, moluscos e excreções, entre outras coisas em estado de putrefação. Para simular o efeito natural, a paleta do perfumista conta com algumas moléculas feitas especialmente para dar um toque “sujinho” à fragrância.

Finalmente, há o mito de que perfumes 100% naturais sejam melhores, tanto em desempenho quanto em aroma. Enquanto uma fragrância mais sintética é trabalhada para fazer uma transição suave entre o mundo orgânico e artificial, a fragrância que usa muitos componentes naturais costuma ter aspecto medicinal e narcótico. Ela tem seu público, mas está longe de ser uma tendência.

Voltando à metáfora inicial, pense na pessoa que está acostumada a tomar suco de caixinha e que resolva tomar um suco de laranja natural, pensando ser a melhor opção. Isso realmente pode lhe fazer um estrago no estômago. Por outro lado, não nego que uma gota de matéria-prima natural possa transformar a mediocridade em obra-prima.

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