A maldição dos connoisseurs

lonelinessChega um ponto na vida do connoisseur que ele se depara com uma maldição: a solidão. Antes ele se contentava com um Calvin Klein e achava Dior o suprassumo.

Aos poucos, a determinação de explorar a perfumaria vai abrindo novos caminhos e o olfato se torna cada vez mais elástico, como um músculo que dói no primeiro dia da musculação.

Uma fragrância à base de vetiver passa impressão de água suja. O cheiro plástico de pólen da acácia é de embrulhar o estômago. “Que nota esquisita (folha de violeta) dá esse aspecto amargo em Fahrenheit?” Assim como não nascemos gostando de tudo que comemos, o espectro do nosso olfato vai se ampliando à medida em que insistimos no estranho, bizarro e incomum.

Quando fica claro que podemos apreciar o que costumávamos rejeitar, sentimos uma sensação de crescimento, superação e liberdade. Naturalmente, em certo momento, o gosto fica tão sofisticado que passa a exigir o excêntrico – pelo menos sob o ponto de vista do leigo. Nota-se um desconforto ao redor. Os mais sinceros dizem que alguém está usando um perfume que cheira a bode suado. Dependendo da personalidade do connoisseur, ele pode passar a diminuir as borrifadas ou simplesmente pensar “Se eu gosto, é isso que importa”.

O fato é que, por mais que neguemos, queremos que os outros partilhem da nossa experiência. Faz parte do ser humano ser um pouco voyeur e observar as reações alheias. O connoisseur, que investiu bastante tempo, dinheiro e pele para chegar nesse nível de sensibilidade olfativa, agora se vê numa armadilha da qual não consegue escapar. Não dá para voltar atrás e é impossível fazer com que as outras pessoas consigam sentir o que o nariz dele sente.

6 pensamentos sobre “A maldição dos connoisseurs

  1. Espectro olfativo! Eis uma coisa que não nos acostumamos com facilidade. Treinar o olfato para ampliar o seu domínio diante de tantas notas, conseguir discernir as variações sem ser enganado pelo conhecimento aparente… Não tem outra alternativa se não explorar, proporcionar ao sentido uma máxima gama de experiências olfativas. Mas penso, será possível avançar sem antes deter o conhecimento de cada nota? Ou só explorando a variedade de fragrâncias já é o suficiente para proporcionar um reconhecimento e assim posto, deter um conforto olfativo?!

    • Eu comecei a desenvolver a identificação de notas através de um especialista que me deu umas 10 aulas. Mas entendo que isso não é possível para todos. Nesse caso, não vejo outra alternativa se não provar fragrâncias e comparar com as notas no Fragrantica. Aos poucos vc vai percebendo perfumes que têm notas parecidas e descobre o que é. Mas eu acho que o mais importante não é saber as notas e sim os estilos/aspectos olfativos.

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