Faltam adjetivos para descrever perfumes

wordsDentre todos os nossos sentidos, certamente o menos usado é o olfato.

Há um motivo para isso: hoje em dia nós não precisamos dele tanto quanto nossos ancestrais, que dele dependiam para sobreviver. Usamos o nosso nariz mais ativamente em situações de emergência ou incômodo, como quando a comida está queimando ou alguém com cheiro forte de suor senta ao lado. O gás de rua tem um potente odor artificial e característico justamente para nos alertar de um possível vazamento. Inseticidas precisam ter um cheiro ruim para que saibamos dosar a quantidade (já houve casos de fabricantes que amenizaram o odor, criando assim vítimas de intoxicação). E, como o nosso vocabulário é formado pela necessidade cotidiana, há uma carência explícita de adjetivos para descrever cheiros além de “fragrante” (neutro), “cheiroso” (positivo) ou “fedido” (negativo).

Nós só conseguimos descrever odores emprestando termos de outros sentidos – o fenômeno da sinestesia. Por exemplo, tente descrever uma ostra. Adjetivos como gosmenta, salgada e gelada vêm à cabeça, mas como descrever o cheiro que lhe é tão peculiar? Uma famosa citação de Ernest Hemingway exemplifica: “Enquanto eu comia ostras com seu aroma do mar ligeiramente metálico enxaguado pelo vinho, deixando apenas a textura suculenta, eu perdia o sentimento de vazio.” Assim, perfumes também podem ser descritos usando adjetivos como moderno, clássico, datado, fresco, denso, limpo, funcional, adstringente, rançoso, abafado, narcótico, intoxicante, efervescente, doce, salgado, gourmand, quente, translúcido, leve, macio, aveludado, sedoso, pesado, escuro, brilhante, marinho, ozônico, ácido, verde, amargo, vegetal, azedo, sujo, podre, herbáceo, agreste, crispy, musgoso, terroso, florestal, atalcado, frutado, polvoroso, soapy, cremoso, lactônico, medicinal, picante, licoroso, boozy, canforado, terpênico, amadeirado, resinoso, balsâmico, esfumaçado, metálico, plástico, mineral, animálico e musky – a lista não para sem contar o uso de infinitas metáforas que podem ser usadas livremente contanto que o interlocutor consiga “visualizar” o cheiro que você está descrevendo.

A grande desvantagem da escassez de adjetivos específicos para o olfato (e isso vale para todas as línguas, inclusive o francês) é o abuso de marketing. Grifes adoram contar uma historinha para nos fazer comprar um perfume, e acabamos acreditando em tudo por pura ingenuidade. 1 x 0 para eles. Já que não conseguimos dar nomes aos cheiros, nada mais conveniente do que associar fantasias a cada um deles, criando as mais diversas aspirações emocionais. E como elas são sedutoras!

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