Luca Turin – o maior crítico de perfumes

TurinSempre tive uma relação de amor e ódio com Luca Turin, considerado a grande referência de avaliações olfativas. Por um lado, admiro o seu vasto conhecimento e dedicação ao assunto, desde a esfera molecular à mercadológica. Por outro lado, seu estilo sarcástico e, às vezes, aniquilador, ao meu ver torna-se contraprodutivo, embora admita ser repleto de um humor delicioso. Colocando tudo na balança, confesso que não admiro outro crítico mais do que este libanês de nascimento, criado por uma família ítalo-argentina e hoje praticamente um francês naturalizado.

Em seu famoso guia Perfumes: The A-Z Guide, lançado pela primeira vez em 2008, Turin não só dá um banho de conhecimento em fragrâncias, como também se torna um guru para qualquer indivíduo que tenha vontade de conhecer profundamente o misterioso e etéreo mundo da perfumaria. Justamente aí é que reside uma de suas maiores contribuições – Turin adora quebrar tabus e mostrar que o aparentemente complexo é simples e o aparentemente simples é complexo. Suas resenhas são muitas vezes de difícil digestão por causa do seu “narcisismo” – o autor esbanja conhecimento em todos os possíveis âmbitos, como se fosse um cruzamento de engenheiro químico, diretor de arte, historiador, perfumista e connoisseur.

Em sua última entrevista ao blog Persolaise, Turin mais uma vez surpreende por suas afirmações radicais, sem papas na língua. O mago dos perfumes reitera sua visão de perfume não como um cheiro (por exemplo, um óleo de rosa) e sim como uma mensagem engarrafada e indecifrável (a apresentação do odor de rosa oferecida por um perfumista), quebra o mito de que o perfume tenha acesso privilegiado à memória (segundo ele, um mal-entendido devido ao caráter único de uma composição olfativa e a nossa falta de treino sensorial), e ainda defende os perfumistas autodidatas (os quais julga estarem em posição injusta por não terem acesso a sintéticos cativos de grandes casas de fragrâncias como Givaudan e IFF). Talvez essa tenha sido a minha maior surpresa, sabendo que estamos falando de um senhor que aparentemente coloca o conhecimento e a técnica em primeiro lugar, mas que no fundo prioriza o perfume verdadeiramente inovador, venha de onde vier.

Turin afirma ainda que admira a maison Chanel por ser uma das poucas que não diluiu a qualidade de suas criações ao longo do tempo, enquanto considera a tradicional Guerlain embriagada por seu esnobismo. Segundo ele, dos 1400 lançamentos anuais na perfumaria, 95% são lixo (sic), vindos principalmente dos grandes designers.

O crítico finaliza com a mensagem de que o papel de diretor artístico é tão importante quanto o do perfumista, pois ele funciona como um editor de filmes. Segundo Turin, esse papel é feito brilhantemente por Christopher Chong de Amouage, deixando a desejar por Frédéric Malle, hoje adquirido pela gigante Estée Lauder.

Em 2018, dez anos após o seu primeiro guia, o crítico lançou um segundo sem repetir resenhas, desta vez com foco em perfumaria de nicho.

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