O que concentração realmente significa?

concentraçãoSe estivéssemos vivendo um século atrás, a concentração de uma fragrância teria mais a ver com o propósito da aplicação do que com a qualidade do perfume.

Uma colônia (EDC) serviria para o bem-estar depois do banho (quando não simplesmente o substituía), enquanto um eau de parfum (EDP) estaria mais para um acessório de festa. O eau de toilette (EDT) veio bem depois, como uma solução intermediária. Os extratos, embora mais duradouros, não costumam exalar tanto quanto um EDC, EDT ou EDP devido ao seu menor teor de álcool, tornando-se mais rentes à pele e íntimos.

Mais recentemente, contudo, o tema concentração virou uma ferramenta de marketing. Afinal, quem gosta de uma determinada fragrância está inclinado a comprar todas as suas variantes. É comumente aceito que um EDT seja mais leve, feito para o dia a dia, enquanto um EDP seja mais forte, feito para ocasiões especiais ou peles mais rebeldes. Mas as grifes passaram a chamar atenção para os concentrados, especialmente os parfums (forte tendência entre os masculinos), com o argumento de serem melhores. Casas tradicionais e idôneas como Guerlain, Dior e Chanel insistem na ideia clássica de que extratos devam conter os mais raros e preciosos ingredientes daquela formulação (chegando ao nível da melhor safra de um jasmim ou rosa), feitos para serem aplicados em quantidades mínimas. Tais extratos são oferecidos em pequenos frascos de 7,5 a 15 ml e vendidos entre 100 e 120 euros. Já no mercado masculino, o conceito é diferente – um bom exemplo é Terre d’Hermès Parfum, que custa cerca de 100 euros para um frasco de 75 ml. Isso é fácil de explicar, visto que se trata de um perfume mais fresco e carregado de materiais menos caros como óleos essenciais de laranja e vetiver, além de uma boa dose de sintéticos igualmente econômicos como hedione e Iso E Super.

Por outro lado, o mercado de massa usa a concentração como vantagem competitiva ou justificativa para um preço diferenciado. Com a vasta disponibilidade de químicos aromáticos na perfumaria moderna, hoje é possível que um perfumista faça com que sua composição chegue a uma concentração de 30% se nela injetar uma boa dose de sintéticos que funcionem como “fermento”, afinal concentração é sempre uma proporção da essência em relação ao volume total. Isso explica como fabricantes de contratipos (clones) possam escrever sem medo “contém 30% de essência” em seus frascos.

A qualidade de uma fragrância tem, na verdade, pouco a ver com a proporção entre óleos essenciais, químicos aromáticos, solventes e álcool. O que realmente faz a diferença são os ingredientes utilizados (naturais e sintéticos) e, principalmente, COMO eles são utilizados. Existem perfumes na concentração de apenas 10% com melhor aroma e performance do que muitos vendidos na forma de extrato ou parfum acima de 20%.

Infelizmente, o consumidor típico não tem um nariz treinado e capaz de perceber a real qualidade de uma fragrância no instante em que ela interaja com a pele e passe a exalar seu aroma, independente da inscrição no rótulo.

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