“Para o perfumista, não existe cheiro ruim”

FromPerfume-TheStoryofaMurderer-e1440622546241Essa é uma frase que soa como clichê, sem qualquer imparcialidade, feita para glamourizar a profissão de um perfumista. A última vez que a ouvi foi na reunião dentro de uma grande casa de fragrâncias. Mas também dessa vez ouvi diferente – pela primeira vez, eu tinha uma melhor noção do que é ser perfumista.

Ainda sendo amador e sem formação técnica, hoje entendo bem por que não existe cheiro ruim na hora de compor um perfume. O que seria um “cheiro ruim”? Por mais que tenhamos diferentes memórias olfativas, existe um certo consenso a respeito do que é um aroma desagradável, a exemplo de excreção animal, carne queimada, gás carbônico, ovo podre, lixo em decomposição… Tudo que remete a enxofre e pirazina nos causa repulsa. Isso é fácil de entender – o primeiro está relacionado a fluídos que são liberados do nosso corpo por serem desnecessários e indesejados; o segundo está relacionado à morte, como num acidente de carro que deixa vítimas carbonizadas. O chorume – aquele líquido fétido liberado por um material em decomposição, de lixo a cadáveres, é resultado da metabolização anaeróbica de bactérias (quando não há oxigênio disponível). Tais odores são nauseantes para qualquer ser humano, independente da cultura onde foi criado, em qualquer parte do mundo. Já as secreções exalam um aroma que pode nos agradar inconscientemente, mesmo que neguemos. O suor humano, embora rejeitado por muitos, pode ser atraente para alguns. Agora, quando falamos na composição de fragrâncias, a coisa é diferente.

Na paleta do perfumista, nenhum cheiro é descartável, afinal até o pior deles pode produzir um efeito incrível. Os exemplos mais conhecidos são ingredientes animálicos como civet e castoreum – o primeiro mais ardido como queijo em putrefação; o segundo mais oleoso como couro cabeludo sujo. Em sua forma isolada, podem ser repugnantes, mas quando aplicados em doses mínimas a criações olfativas podem fazer toda a diferença entre a mediocridade e a obra-prima. O princípio do yin-yang explica tudo isso, mostrando que, para se dar brilho e vivacidade, é necessária uma contraposição com o escuro e o perverso.

Por outro lado, não basta um composto ter odor exótico para ser usado em perfumes – ele precisa ter propriedades específicas que permitam uma excelente maceração e fixação (atributos que tanto o civet como o castoreum têm com excelência). Mesmo o jasmim não teria o seu aroma de aspecto carnal e inebriante sem a molécula indol, uma das mais fétidas da perfumaria em sua forma isolada.

Lidar com cheiros repugnantes é essencial para a profissão de perfumista, que precisa constantemente evitar preconceitos e buscar ideias originais por meio de contrastes. É muito difícil chegar a uma fragrância verdadeiramente original quando se está limitado a ingredientes de odores agradáveis.

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