A maldição dos connoisseurs

lonelinessChega um ponto na vida do connoisseur que ele se depara com uma maldição: a solidão. Antes ele se contentava com um Calvin Klein e achava Dior o suprassumo.

Aos poucos, a determinação de explorar a perfumaria vai abrindo novos caminhos e o olfato se torna cada vez mais elástico, como um músculo que dói no primeiro dia da musculação.

Uma fragrância à base de vetiver passa impressão de água suja. O cheiro plástico de pólen da acácia é de embrulhar o estômago. “Que nota esquisita (folha de violeta) dá esse aspecto amargo em Fahrenheit?” Assim como não nascemos gostando de tudo que comemos, o espectro do nosso olfato vai se ampliando à medida em que insistimos no estranho, bizarro e incomum.

Quando fica claro que podemos apreciar o que costumávamos rejeitar, sentimos uma sensação de crescimento, superação e liberdade. Naturalmente, em certo momento, o gosto fica tão sofisticado que passa a exigir o excêntrico – pelo menos sob o ponto de vista do leigo. Nota-se um desconforto ao redor. Os mais sinceros dizem que alguém está usando um perfume que cheira a bode suado. Dependendo da personalidade do connoisseur, ele pode passar a diminuir as borrifadas ou simplesmente pensar “Se eu gosto, é isso que importa”.

O fato é que, por mais que neguemos, queremos que os outros partilhem da nossa experiência. Faz parte do ser humano ser um pouco voyeur e observar as reações alheias. O connoisseur, que investiu bastante tempo, dinheiro e pele para chegar nesse nível de sensibilidade olfativa, agora se vê numa armadilha da qual não consegue escapar. Não dá para voltar atrás e é impossível fazer com que as outras pessoas consigam sentir o que o nariz dele sente.

O que faz um perfume ser interessante?

fragrance-pyramidIndependentemente da performance na pele ou da sua memória olfativa particular, existem alguns fatores que separam perfumes incríveis daqueles medianos, inofensivos e que agradam a maioria.

O perfume deve ser visto como algo artístico, portanto qualquer percepção literal ou figurativa diminui o seu valor. Não é legal sair com um cheiro orgânico de rosa ou de sândalo, assim como não é legal sair com um odor sintético de metal ou plástico. Já uma rosa metálica ou um sândalo plástico podem ser interessantes.

Um perfume bem feito é construído com notas de diferentes volatilidades para evitar que fique com aspecto abafado como um xampu ou amaciante. Moléculas de pesos diferentes vão formando uma composição como na música, com início, meio e fim, criando harmonia.

Assim como na moda, os contrastes são fundamentais. O princípio taoísta do yin-yang explica: no estado puro, nada existe; a contraposição valoriza a força de dois polos. Desta forma, não surpreende que o acorde clássico fougère seja tão popular: enquanto a lavanda traz um frescor leve e gelado, a cumarina dá substância e calor. Ou no caso do acorde clássico chipre: a combinação de bergamota e rosa (ou outra flor) refresca e ilumina a composição, ao passo que a combinação de labdanum e madeiras amargas propicia consistência e sofisticação.

Criações mais ousadas são sempre mais interessantes – uma nota de coco num acorde polvoroso ou uma nota de abacaxi num acorde oriental podem surtir resultados surpreendentes. Mas para isso é preciso ter coragem e não se basear em focus groups. Revisitar ingredientes do passado também é uma boa pedida. E, finalmente, um perfume interessante precisa ter “ranhuras” – uma composição muito limpa, ou muito redonda, não convence. Na perfumaria, não existe Photoshop.

Como você “enxerga” um perfume?

ComoVocêVê O perfume é como qualquer artigo à venda no mercado, podendo ser enxergado de diversas formas. Para simplificar, basicamente, um produto pode ser visto como um fim em si (uma utilidade), um meio (uma ferramenta) ou um símbolo (um fetiche).

Pense num carro. Você pode adquiri-lo usando como critério o quão eficiente ele seja desempenhando uma tarefa específica, como levar os filhos à escola com o menor consumo possível de combustível. Você pode escolher um modelo pensando na engenharia do carro ou em como você se sente o operando – ou seja, enxergando-o como uma ferramenta entre você e o objetivo final. Finalmente, você pode comprar um carro como objeto de poder e status para aumentar a autoestima ou fomentar a admiração dos outros por você.

Claramente o produto sendo visto como um meio é mais bem aproveitado, no sentido de que suas características intrínsecas são mais apreciadas e compreendidas – “o que importa é a viagem em si e não o destino”. O mesmo vale para o perfume. Há quem o compre como uma utilidade (para disfarçar cheiro de suor ou cigarro), como uma ferramenta (para ter bem-estar ou se conhecer melhor), ou como um fetiche (para se sentir valorizado por si mesmo e pelos outros). O primeiro grupo de consumidores está mais ligado ao “gosto” ou “não gosto”, mais pragmáticos, dando pouco atenção ao marketing e mais ao resultado e objetivo alcançado. O segundo está mais ligado ao “tem a ver comigo”, com consumidores mais sofisticados, assimilando a experiência olfativa como um todo. O terceiro está mais ligado ao “preciso comprar”, “preciso ter” ou “preciso mostrar”, aspirando incorporar em si a imagem que a grife, o frasco, a embalagem e o anúncio transmitem.

A perfumaria é marcadamente dividida nessas três formas de enxergar o produto. Às vezes elas não são tão claras e se confundem – pode ser que eu enxergue o meu Dior Homme (o melhor perfume do mundo, na minha opinião) apenas como uma ferramenta, mas ele acaba representando uma grande fantasia para mim, sem que eu me dê conta disso. Ele também pode ter a utilidade de seduzir alguém na balada. Não há nada de errado em ver o perfume como utilitário ou fetiche, contanto que o usuário tenha consciência disso.

Consciência é algo difícil quando o assunto em pauta é tão etéreo como a perfumaria, deixando muito espaço para as manipulações dos gurus da publicidade. Quanto menos se domina um assunto, mais propensos estamos à autossugestão. Mas a questão chave é: o perfume contribui para você da forma que melhor pode ser aproveitada no seu contexto pessoal? Se sim, vá em frente. O perfume está a seu serviço e não o contrário.

“Adorei seu perfume. Qual é o sexo dele?”

2273607274 Deparei-me com a matéria de uma blogueira de perfumes. O texto me chamou atenção, pois a garota fazia seu manifesto contra perfumes unissex ou compartilháveis. Segunda ela, essa nova tendência acabaria com os perfumes claramente femininos ou masculinos. Seria um adeus às bombas florais e aos fougères viris, afinal, para serem compartilháveis, os perfumes precisariam agradar a homens e mulheres, como os aromáticos ou os gourmands.

Temo que a blogueira tenha captado a ideia de forma equivocada. A tendência não é de perfumes que agradem aos dois sexos, mas sim de perfumes sem o rótulo pour homme / pour femme ou for men / for women como antes da massificação da perfumaria. Ou seja, abaixo a pretensão de ditar a quem se destina o perfume!

É só observar o que acontece no mercado de nicho – os perfumes são concebidos conforme a inspiração do perfumista, deixando para o usuário a decisão da escolha. No mercado de nicho, os perfumes são ainda mais heterogêneos, variando de aromático florestal com tons animálicos a floral oriental gourmand.

A vantagem de não classificar perfumes por gênero é ampliar as possibilidades para o usuário. Por exemplo, dificilmente um homem provará um Baiser Volé de Cartier, localizado na prateleira feminina. O fato é que Baiser Volé cai muito bem para homens com seu aroma cítrico e floral fresco à base de lírio-do-vale. Já as mulheres costumam provar perfumes masculinos com mais frequência, mas não vejo muitas usando Dior Homme, um dos mais belos amadeirados à base de íris, lavanda, couro, patchouli e cacau.

Quando o assunto é perfume, somos mais que um gênero – somos uma personalidade única. Este é um assunto que, enquanto não entendermos de vez do que realmente se trata, virá sempre à tona, muitas vezes com resistência.

Relaxemos – a vitória é nossa.

O confortável, o bonito, o chic, o sexy e o gostoso 

EstilosTodo bom perfume se encaixa em um ou mais destes adjetivos. Normalmente, uma pessoa prioriza dois ou três deles e a escolha depende da sua personalidade com suas motivações mais profundas, cristalizadas durante a infância e sofisticadas durante a vida adulta.

Alguns dividem sua coleção em dia e noite, deixando os mais leves e secos para o trabalho e os mais potentes e adocicados para a balada. Tem gente que prefere uma fragrância arejada, vibrante ou relaxante, que lhe traga bem-estar – para eles existem os cítrico-aromáticos e os florais frescos como CK One, Acqua di Gio ou L’Eau d”Issey. Outros usam perfume para chamar atenção, podendo assim serem percebidos assim que entram no recinto e atrairem olhares (às vezes só por provocação) – lhes caem bem os fougères intensos como Kouros ou florais-bomba como Joop Femme. Há quem prefira ser discreto sem abrir mão da elegância, buscando passar a impressão de seriedade e refinamento – para homens, uma boa pedida são os chipres amadeirados como Encre Noire e, para as mulheres, os chipres tradicionais como 24 Faubourg. Boa parcela dos usuários curte perfumes mais doces e encorpados, dividindo-se em sedutores (conquista, motivação externa) e hedonistas (prazer, motivação interna) – esses se dão melhor com os orientais como Classique ou Spicebomb.

Embora o verdadeiro aficcionado busque gostar de todo tipo de perfume, explorando as cinco qualidades em destaque, é impossível gostar de tudo. Há sempre um estilo que causa repugnância, onde o máximo que se pode fazer é admirar a beleza do perfume, mesmo sem conseguir usá-lo. Já o público médio geralmente opta por um estilo só – por exemplo, confortável (Light Blue), bonito (Anaïs Anaïs), chic (Vetiver de Guerlain), sexy (1 Million) ou gostoso (Angel). Alguns perfumes são mais versáteis e se enquadram em mais de um adjetivo: confortável-chic (Terre d’Hermès e Baiser Volé), confortável-bonito (Eau Sauvage e Infusion d’Iris), confortável-sexy (Bleu de Chanel e La Panthère), confortável-gostoso (212 Men e Armani Code), bonito-chic (Dior Homme e Chloé), bonito-sexy (Fahrenheit e Coco Mademoiselle), sexy-chic (La Nuit de l’Homme e Alien), sexy-gostoso (Le Mâle e Lolita Lempicka), entre tantas infinitas combinações.

Independentemente de qualquer coisa, o mais importante é evitar preconceitos e descobrir as diversas facetas da perfumaria antes de se decidir por um único estilo. Há muita gente por aí perdida, usando um perfume legal, porém não o melhor para ela porque não conhece outras possibilidades ou porque foi hipnotizada pelo marketing.

Não espere o perfume te escolher – você é que tem que ir até ele.

“Para o perfumista, não existe cheiro ruim”

FromPerfume-TheStoryofaMurderer-e1440622546241Essa é uma frase que soa como clichê, sem qualquer imparcialidade, feita para glamourizar a profissão de um perfumista. A última vez que a ouvi foi na reunião dentro de uma grande casa de fragrâncias. Mas também dessa vez ouvi diferente – pela primeira vez, eu tinha uma melhor noção do que é ser perfumista.

Ainda sendo amador e sem formação técnica, hoje entendo bem por que não existe cheiro ruim na hora de compor um perfume. O que seria um “cheiro ruim”? Por mais que tenhamos diferentes memórias olfativas, existe um certo consenso a respeito do que é um aroma desagradável, a exemplo de excreção animal, carne queimada, gás carbônico, ovo podre, lixo em decomposição… Tudo que remete a enxofre e pirazina nos causa repulsa. Isso é fácil de entender – o primeiro está relacionado a fluídos que são liberados do nosso corpo por serem desnecessários e indesejados; o segundo está relacionado à morte, como num acidente de carro que deixa vítimas carbonizadas. O chorume – aquele líquido fétido liberado por um material em decomposição, de lixo a cadáveres, é resultado da metabolização anaeróbica de bactérias (quando não há oxigênio disponível). Tais odores são nauseantes para qualquer ser humano, independente da cultura onde foi criado, em qualquer parte do mundo. Já as secreções exalam um aroma que pode nos agradar inconscientemente, mesmo que neguemos. O suor humano, embora rejeitado por muitos, pode ser atraente para alguns. Agora, quando falamos na composição de fragrâncias, a coisa é diferente.

Na paleta do perfumista, nenhum cheiro é descartável, afinal até o pior deles pode produzir um efeito incrível. Os exemplos mais conhecidos são ingredientes animálicos como civet e castoreum – o primeiro mais ardido como queijo em putrefação; o segundo mais oleoso como couro cabeludo sujo. Em sua forma isolada, podem ser repugnantes, mas quando aplicados em doses mínimas a criações olfativas podem fazer toda a diferença entre a mediocridade e a obra-prima. O princípio do yin-yang explica tudo isso, mostrando que, para se dar brilho e vivacidade, é necessária uma contraposição com o escuro e o perverso.

Por outro lado, não basta um composto ter odor exótico para ser usado em perfumes – ele precisa ter propriedades específicas que permitam uma excelente maceração e fixação (atributos que tanto o civet como o castoreum têm com excelência). Mesmo o jasmim não teria o seu aroma de aspecto carnal e inebriante sem a molécula indol, uma das mais fétidas da perfumaria em sua forma isolada.

Lidar com cheiros repugnantes é essencial para a profissão de perfumista, que precisa constantemente evitar preconceitos e buscar ideias originais por meio de contrastes. É muito difícil chegar a uma fragrância verdadeiramente original quando se está limitado a ingredientes de odores agradáveis.

A diferença entre bom e bom para mim

11097_385599691603636_1901330779558773523_nO olfato é como qualquer outro sentido: é uma forma de conexão entre nós e o ambiente e que traz diversas associações conscientes e inconscientes. Essas associações são processadas pelo seu sistema límbico que decide o que é agradável ou desagradável.

Por mais que gosto seja pessoal, alguns odores são universais. O aroma de baunilha remete ao leite materno e transmite acolhimento e conforto; o aroma fecal remete à podridão e sujeira. Flores e frutas são mais associadas à feminilidade, pois são os aromas que transmitem beleza e sensualidade (atração de insetos para polinização). Madeiras e notas aromáticas (lavanda, gerânio, menta etc) são mais associadas à masculinidade, pois são os aromas que transmitem solidez e frescor. Notas picantes e gourmands são unissex por conta do apelo universal ao paladar.

O gosto também está sujeito à moda e a regras da indústria. Por exemplo, devido à restrição do uso de musgo de carvalho e indol (molécula que dá o odor fecal às flores brancas), fragrâncias com estas notas em evidência estão em desuso e hoje passam por datadas (“perfume de vovó”). Notas animálicas praticamente desapareceram depois da onda puritanista dos anos 90, mas podem voltar com a expansão do mercado de nicho. Independentemente dos clichês olfativos, você possui um gosto único e que precisa ser explorado para obter o maior proveito possível da perfumaria.

A grosso modo: quem curte bombas (loud) deve priorizar notas como flores brancas, frutas suculentas, âmbar, baunilha, mel, tabaco, couro, incenso, especiarias e madeiras encorpadas (oud, patchouli, sândalo). Quem prefere discrição e frescor (quiet) deve priorizar notas como frutas cítricas, néroli ou flor de laranjeira, íris, violeta, rosa, gerânio, lavanda, ervas finas, madeiras leves (vetiver, cedro) e musks brancos. Cada uma dessas duas categorias simplistas é ramificada em diversos estilos, compostos de variadas notas e acordes.

Moral da história: não deixe que alguém diga a você o que é bom.

Qual o perfume mais sedutor?

10690112_389256801237925_1352436800170758827_nAquele que faria com que todos se curvassem à sua frente como no best-seller “O Perfume” de Patrick Süskind? Obviamente tal fórmula é um mito e o Santo Graal da perfumaria existe apenas para deixar o assunto ainda mais interessante.

O início da noção de que poderia haver um perfume que conquistasse a todos veio da associação com os feromônios que existem no mundo animal com a finalidade de atrair (sexualmente), agregar ou alertar. O fato é que nunca foi comprovado o mesmo efeito em seres humanos e, portanto, qualquer fabricante ou marca que se proponha a tanto está praticando falsidade ideológica.

O outro ponto é que, não existindo tal elemento universal de atração humana, o aroma de uma fragrância recai sobre os diversos gostos pessoais. Talvez possamos agrupar os gostos em uma dezena de categorias genéricas, mas não menos do que isso. E quanto mais apurado seja o olfato de uma pessoa, mais exigente ela será (um tiquinho de gengibre ali, e pronto, já estragou).

Por outro lado, alguns estudos mostram que o componente do jasmim – o hedione – que produz o seu característico odor brilhante e fresco (ou seja, descontando a parte narcótica e orgânica da flor) está próximo da unanimidade. Homens e mulheres são atraídos pelo aroma que foi sintetizado e usado pela primeira vez em Eau Sauvage. De toda forma, não dá para usar hedione em tudo. A perfumaria perderia a graça.

No final das contas, o perfume que mais conquista é aquele que gera autoconfiança e, consequentemente, atração. E para isso o perfume deve estar muito bem alinhado com o estilo e a personalidade de quem o usa.

Faltam adjetivos para descrever perfumes

wordsDentre todos os nossos sentidos, certamente o menos usado é o olfato.

Há um motivo para isso: hoje em dia nós não precisamos dele tanto quanto nossos ancestrais, que dele dependiam para sobreviver. Usamos o nosso nariz mais ativamente em situações de emergência ou incômodo, como quando a comida está queimando ou alguém com cheiro forte de suor senta ao lado. O gás de rua tem um potente odor artificial e característico justamente para nos alertar de um possível vazamento. Inseticidas precisam ter um cheiro ruim para que saibamos dosar a quantidade (já houve casos de fabricantes que amenizaram o odor, criando assim vítimas de intoxicação). E, como o nosso vocabulário é formado pela necessidade cotidiana, há uma carência explícita de adjetivos para descrever cheiros além de “fragrante” (neutro), “cheiroso” (positivo) ou “fedido” (negativo).

Nós só conseguimos descrever odores emprestando termos de outros sentidos – o fenômeno da sinestesia. Por exemplo, tente descrever uma ostra. Adjetivos como gosmenta, salgada e gelada vêm à cabeça, mas como descrever o cheiro que lhe é tão peculiar? Uma famosa citação de Ernest Hemingway exemplifica: “Enquanto eu comia ostras com seu aroma do mar ligeiramente metálico enxaguado pelo vinho, deixando apenas a textura suculenta, eu perdia o sentimento de vazio.” Assim, perfumes também podem ser descritos usando adjetivos como moderno, clássico, datado, fresco, denso, limpo, funcional, adstringente, rançoso, abafado, narcótico, intoxicante, efervescente, doce, salgado, gourmand, quente, translúcido, leve, macio, aveludado, sedoso, pesado, escuro, brilhante, marinho, ozônico, ácido, verde, amargo, vegetal, azedo, sujo, podre, herbáceo, agreste, crispy, musgoso, terroso, florestal, atalcado, frutado, polvoroso, soapy, cremoso, lactônico, medicinal, picante, licoroso, boozy, canforado, terpênico, amadeirado, resinoso, balsâmico, esfumaçado, metálico, plástico, mineral, animálico e musky – a lista não para sem contar o uso de infinitas metáforas que podem ser usadas livremente contanto que o interlocutor consiga “visualizar” o cheiro que você está descrevendo.

A grande desvantagem da escassez de adjetivos específicos para o olfato (e isso vale para todas as línguas, inclusive o francês) é o abuso de marketing. Grifes adoram contar uma historinha para nos fazer comprar um perfume, e acabamos acreditando em tudo por pura ingenuidade. 1 x 0 para eles. Já que não conseguimos dar nomes aos cheiros, nada mais conveniente do que associar fantasias a cada um deles, criando as mais diversas aspirações emocionais. E como elas são sedutoras!

Os 7 estágios da perfumania

Nose 1-DESCOBERTA: Você ainda é pequeno e vai bisbilhotar no banheiro dos pais. Os produtos de beleza da mamãe são muito mais interessantes e elaborados, principalmente os pequenos frascos com spray. Com o instinto que a natureza lhe deu, você escolhe um e pressiona a válvula. Leva um susto – não é amor à primeira vista. Depois de cinco minutos, você se rende.

2-EXPLORAÇÃO: Com o novo prazer descoberto, você sai em busca de outros banheiros ou entra sorrateiramente em perfumarias. Afinal é um prazer restrito aos adultos. Chega um momento em que é aceitável pedir um perfume como presente de aniversário.

3-PADRÕES: A divisão entre masculino (seco e/ou herbáceo) e feminino (doce e/ou floral) aos poucos vai incomodando, então você se vê obrigado a tomar a decisão de seguir os padrões ou o seu instinto.

4-MATCH: Finalmente, você encontra o perfume ideal, que tem tudo aquilo que você gosta e faz uma química perfeita com a sua pele. Você o usa em todos os lugares e ocasiões, e sua autoestima se eleva, atraindo elogios.

5-APATIA: Passada a lua-de-mel, com uma acomodação olfativa, você sente falta do prazer de explorar novos perfumes e se encantar com eles. É hora de voltar à busca, desta vez de forma mais consciente.

6-EXPLORAÇÃO CONSCIENTE: Você decide ignorar todos os rótulos e regras, com nada entre o líquido e o seu nariz. Grifes, frascos, preços e anúncios não fazem mais parte do jogo. Percebe, então, que seu nariz se torna mais elástico quando toda forma de autossugestão é suprimida.

7-INSIGHT: Chegou o momento do despertar. Aquilo que muitos anos atrás fora motivado pelo instinto era, na verdade, uma força interior em busca de autoconhecimento – o olfato primitivo e renegado querendo emergir.

Através da exploração do quinto sentido, você descobriu o que ele pode fazer por você: ser completo e viver no presente.