Conceitos Básicos

10687408_389729637857308_4506374977562519780_oOrigem do perfume Quando o homem descobriu o fogo, começou a queimar tudo o que via pela frente e notou algo curioso: o odor das coisas mudava quando elas queimavam. No Egito e na Mesopotâmia começaram as associações de que aquela fumaça que subia ao céu era um meio de comunicação com os deuses (per significa através e fumum fumaça em latim). Muito tempo depois, o químico persa Avicena inventou o processo de destilação, que deu origem à confecção de óleos perfumados, basicamente de flores e ervas. A profusão da perfumaria abriu duas novas frentes além da religiosa: a funcional e a cosmética. A água perfumada passou a ser vista como meio para espantar e curar doenças. Séculos depois, Grasse, uma pequena cidade ao sul da França polo do curtume europeu e famosa por suas tradicionais plantações de jasmim e lavanda, reunia muitos perfumistas que usavam suas criações para mascarar o odor animálico do couro. A aglomeração dos perfumistas eventualmente chamou a atenção de Luís XIV, que trouxe o hábito de perfumar luvas e perucas à corte francesa. Nascia aí o viés cosmético do perfume e a França como referência eterna na perfumaria. Em 1792 o perfumista italiano Johann Maria Farina tomou como base a aqua mirabilis e criou a famosa Eau de Cologne 4711 – a primeira fragrância comercial da história.

10636142_398520926978179_829213458514059608_nO brasileiro e o perfume | De onde veio essa paixão por cheiros que fez do nosso país o maior consumidor mundial de fragrâncias? Dos índios. Desde o descobrimento do Brasil há relatos dos portugueses sobre os hábitos de assepsia dos nativos. Os europeus em geral viam o perfume como uma maneira de encobrir odores corporais, pois acreditavam que o ato de tomar banhos atraía doenças. Já os índios viam no ato da perfumação o relacionamento com a natureza e uma maneira de comunicar-se entre si e com os deuses. Seus banhos de cheiro eram repletos de óleos de flores, ervas e folhas aromáticas, favorecidos pela abundância de rios e biodiversidade nas regiões Norte e Nordeste. Enquanto os portugueses pragmaticamente aplicavam extratos concentrados para encobrir o mau cheiro, os nativos tinham o costume de banhar-se várias vezes ao dia e de apreciar os aromas levemente, pois precisavam de seu olfato intacto para caçar ou defender-se de animais selvagens. Mais tarde os negros trouxeram para o Brasil outros rituais religiosos com defumações, enfatizando ainda mais a importância desse artefato. O contato com a perfumaria francesa no início do século XX não conseguiu afetar a preferência nacional pelas águas de colônia (ou águas de cheiro), que ainda são vendidas extensivamente e rotuladas como “deo-colônia”. Além do perfume em si, o brasileiro aprecia fragrância em praticamente tudo que aplica no corpo, desde o talco para bebês até o hidratante.

The-Fragrance-Lab-at-Selfridges_dezeen_2Perfumaria moderna O mercado de perfumes começou a se organizar no período entre as duas guerras mundiais e era inicialmente dominado por Guerlain e Coty. Enquanto a primeira se consolidou com o lançamento de Shalimar em 1925, a segunda foi à falência logo em seguida. Ao final da Segunda Guerra Mundial, vários ícones já haviam sido criados: Tabac Blond, N°5, Arpège, Tabu, Femme, Bandit, Miss Dior, Mitsouko e outros. Os anos 50 foram dominados por fragrâncias herbáceas e secas como Vent Vert e Diorissimo. Nos anos 60, foram inaugurados centros de pesquisa de casas de fragrância, como IFF e Givaudan. Os anos 70 foram marcados pela inversão de papéis – perfumes seriam agora feitos conforme a demanda dos consumidores e milhões seriam investidos em propaganda. Com o avanço tecnológico, o número de sintéticos aumentou drasticamente nos anos 80, multiplicando-se as possibilidades de criação. A década foi marcada pelo consumismo e pelo excesso – Giorgio, Poison e Opium eram os mais vendidos. Nos anos 90 nasceu o movimento new age na Califórnia, trazendo a perfumaria de volta a aromas da natureza com CK One e L’Eau d’Issey, ainda que essa natureza fosse reconstruída com cada vez mais elementos sintéticos. Em resposta ao limpo e suave puritanismo americano, designers franceses começaram a lançar fragrâncias extravagantes com aroma de sobremesa, lideradas por Angel de Thierry Mugler. 

10952410_415640831932855_2770463554640455248_nA indústria Há cerca de 50 anos casas de fragrância começaram a investir fortemente em tecnologia, incentivando designers a terceirizarem suas linhas de perfumes para focar naquilo de que melhor entendiam – roupas, joias e acessórios. Hoje apenas quatro empresas fabricam e controlam a logística de seus perfumes: Chanel, Hermès, Patou e o grupo LVMH (Guerlain, Dior, Kenzo e Givenchy, entre outros). Obviamente o envolvimento dessas marcas é muito maior – aqui elas controlam desde plantações de flores até a o canal de distribuição. Os demais designers licenciam suas grifes para grandes conglomerados como L’Oréal, Puig, Coty, Elizabeth Arden, Estée Lauder, Revlon e Procter & Gamble. Estes trabalham juntamente com casas de fragrância como Givaudan (Suiça), IFF (EUA), Firmenich (Suiça), Symrise (Alemanha), Mane (França), Takasago (Japão) e Drom (Alemanha), que juntas perfazem 80% do mercado. Tipicamente o designer envia um briefing às casas de fragrância e a melhor amostra ganha a concorrência. O perfumista é creditado, mas é o nome do designer (ou celebridade) que aparece no frasco. O boom das lojas de departamento nos anos 80 colaborou para o culto às marcas, que ganharam seus quiosques dedicados. A entrada do novo milênio, por fim, foi marcada por um novo canal, a perfumaria de nicho, destinada a atender um novo tipo de consumidor: o connoisseur.

10635990_391016094395329_7148890820860968760_nMasculino, feminino e unissex Nas origens da perfumaria não existia separação entre fragrância masculina e feminina. No entanto, com a industrialização e massificação no XX, casas de perfumes (não mais os perfumistas) viram na separação de gêneros uma oportunidade comercial – poderiam agora vender dois frascos em vez de apenas um. O surgimento das lojas de departamentos gerou competição entre as marcas ao reunir diversas delas num mesmo espaço, criando uma necessidade de direcionamento – a separação de sexos foi a mais óbvia e era de entendimento universal. A partir daí, perfumes masculinos foram associados a higiene e limpeza (funcionais), sendo leves e frescos. Já os femininos foram associados a beleza e vaidade (cosméticos), podendo ser mais marcantes, concentrados e complexos, levando essências mais caras e preciosas em sua composição. Mais recentemente, especialmente com o surgimento dos metrossexuais, veio a tendência dos perfumes unissex (ou compartilháveis) – conceito que já fora adotado pelas casas de nicho que atendem o público dos connoisseurs (por razões de escala, não só criativas). Cada vez mais homens usam fragrâncias florais e doces, e mulheres fragrâncias amadeiradas e secas. Isso trouxe também a tendência de concentrações mais altas (eaux de parfum e extratos) para a perfumaria masculina.

Captura de tela 2015-10-10 16.44.51Odor, cheiro, aroma, fragrância e perfume | Isso tem _____ gostoso. Qual palavra melhor preenche a lacuna? Infelizmente o dicionário não poderá ajudar, pois todas são sinônimos de “emanação volátil de corpos e substâncias que pode ser percebida pelo olfato de pessoas e animais” (Houaiss). A diferença está no contexto e também na cultura local. Geralmente, a complexidade caminha da esquerda para a direita, sendo “odor” um termo mais pejorativo (apesar de ser tecnicamente neutro) e “perfume” o mais positivo e sofisticado. Na perfumaria, “cheiro” e “aroma” são a mesma coisa, sendo o primeiro mais coloquial e o segundo mais formal. O pessoal da indústria certamente vai discordar, pois casas de fragrâncias criaram uma convenção de que “aroma” (como se fosse uma abreviação de “aromatizante”) é usado apenas para alimentos. Já “fragrância” e “perfume” estão mais relacionados a um produto físico e acabado. Dificilmente alguém dirá “este bolo tem um perfume maravilhoso”, embora na França é exatamente assim que se diz. Então, qual a diferença entre “fragrância” e “perfume”? O primeiro é mais amplo, podendo abranger qualquer artigo cheiroso como incensos, sachês, talcos, cremes, loções, óleos, aromatizadores, desodorantes e, é claro, fragrâncias cosméticas para a parte da pele que fica exposta (chamados de “fine fragrances” na indústria). Já o perfume se diferencia por conter uma mensagem ou uma representar uma fantasia, feito para uso pessoal com objetivo lúdico ou estético, jamais funcional.

10891799_402847869878818_7737405395037674303_nGosto e memória olfativa | A impressão geral é de que o olfato é o nosso sentido mais frágil e subdesenvolvido, mas é justamente o contrário. Se por um lado o estímulo sensorial olfativo é o que mais demora a chegar ao cérebro, por outro ele é o mais percebido. Cada odor passa por mais de mil receptores nasais, cada um consistindo de milhões de células sensoriais, capazes de processar milhões de aromas (dez mil vezes mais do que o paladar). As informações são transportadas até o bulbo olfatório, que interage com o sistema límbico, que por sua vez está ligado aos comportamentos básicos do ser humano: alimentação, defesa, fuga, prazer e libido. Os cheiros que sentimos desde que nascemos são registrados pela amígdala (emoção) e hipocampo (aprendizagem). Os aromas de leite materno e talco de bebê, que têm, respectivamente, traços de baunilha e lavanda, geralmente agradam a todos por remeterem a cuidado e proteção. Porém, quando crescemos, episódios diferentes vão acontecendo a cada um e assim diferentes associações são criadas. Cloro de piscina, lápis recém-apontado, maquiagem, eucalipto, vela queimando, tabaco – cada um tem suas próprias associações com esses odores e, por isso, as pessoas gostam de perfumes diferentes e não há um único perfume que agrade todo mundo. A memória olfativa é a mais forte que existe, tanto que quando sofremos um episódio doloroso (rompimento de relação, crise no trabalho, morte na família) o perfume que usamos durante o ocorrido quase sempre passa a trazer más lembranças e até mal-estar físico. Felizmente o contrário também é válido – um perfume pode nos fazer reviver lembranças agradáveis.

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Perfume e autossugestão | Imagine o seguinte cenário: um fabricante está estudando lançar variações de seu famoso amaciante de roupas que tem a cor azul. O departamento de marketing monta um focus group e distribui diversas amostras de colorações diferentes (rosa, amarelo, lilás, verde, e é claro, azul). Os participantes vão dando notas para o aroma de cada variação. Em todos os testes, o aroma do amaciante azul tem a maior pontuação. Detalhe: o fabricante trocou apenas a cor, mas manteve o mesmo aroma em todas as amostras. Isso mostra como somos sugestionáveis quando se trata de odores. O fato é que quanto menos dominamos um assunto, mais somos influenciados por estereótipos, símbolos e opiniões alheias. A maioria das pessoas não possui um olfato treinado, e os profissionais de marketing de perfumaria sabem disso. Mensagens verbais e não-verbais da embalagem, a anatomia do frasco, a coloração do líquido, o modelo do anúncio, a história por trás da marca, o storytelling da fragrância… Tudo é feito para fazer com que você sinta o aroma-fantasia que a marca quer promover. Se você não quer ser vítima desse processo, comece a provar perfumes sem ver o nome e a embalagem do perfume. Você se surpreenderá.

10873381_393579764138962_4134285196071461740_oAnosmia e aprimoramento olfativo | Anosmia é a perda do olfato. Ela pode ser temporária ou definitiva, geral ou específica. É muito comum pessoas perderem o olfato devido a um acidente ou evento traumático. Algumas pessoas são também anósmicas a odores específicos, como alguns tipos de almíscares sintéticos. A anosmia leva eventualmente à perda do paladar, que, por sua vez, não existe sem o olfato. O alcance do olfato deve ser compreendido de duas formas: existe um componente genético (algumas pessoas têm olfato mais apurado do que outras) e um componente cultural (você pode treinar o nariz para captar melhor as notas). Os cegos possuem olfato mais aprimorado porque foram forçados a usá-lo para perceber melhor o mundo. Nós temos o olfato destreinado porque no mundo moderno ele é subaproveitado (ninguém precisa farejar a presa ou o predador para se alimentar ou sobreviver). Também é comum algumas pessoas não conseguirem sentir mais o cheiro de seus perfumes queridos devido ao excesso de uso – a chamada acomodação (ou fadiga) olfativa.

TabelaNotasOlfativasNotas e acordes A perfumaria “emprestou” da música alguns termos para melhor se expressar. Nota é a menor unidade de odor, podendo ser uma flor, uma madeira ou uma resina, entre outros. Acorde é a combinação de duas ou mais notas que perdem sua identidade individual para criar um aroma novo, único e harmônico. Pense na gastronomia e suas combinações incríveis: queijo e goiabada, melão e presunto, morango e chantilly… Perfumistas trabalham com acordes conhecidos ou inéditos para criar um perfume, criando discrepâncias dramáticas, elaborando movimentos e evoluções na busca, ao fim, de uma obra bela e coerente. Alguns acordes são clássicos, por exemplo o colônia (bergamota, néroli, flor de laranjeira, petitgrain), fougère (lavanda, cumarina, musgo de carvalho), chipre (bergamota, patchouli, musgo de carvalho) ou âmbar (labdanum, olíbano, patchouli, almíscar). Existem acordes homogêneos como o floral branco (jasmim, muguê, tuberosa, gardênia, flor de laranjeira), spicy (cravo, canela, cominho, pimenta, cardamomo) ou cítrico (limão, bergamota, laranja, mandarina, toranja), e também heterogêneos como floral-buquê (rosa, jasmim, íris, lírio-do-vale, violeta), amadeirado-aromático (vetiver, cedro, alecrim, manjericão, limão, bergamota) ou gourmand (qualquer nota combinada com caramelo). Um dos acordes mais populares é o rosa-violeta, usado para perfumar batons (porque resiste bem à base do produto).

10906078_403740213122917_1260709863812294534_nNotas confundíveis | É até possível apreciar um perfume sem identificar as suas notas, porém para quem busca um aprimoramento olfativo vale a pena “forçar o nariz” um pouco mais e compreender certas sutilezas. A maior causa de confusão está no fato de matérias-primas terem moléculas comuns entre si – a rosa e o gerânio são ricos em geraniol; cravo (flor) e cravo-da-índia contêm eugenol; notas de coco e figo são ambas feitas com gamma octalactone; néroli e flor de laranjeira contêm indol. Alguns casos acontecem dentro da mesma família: íris, violeta e lilás passam uma mesma impressão atalcada de maquiagem; vetiver, feno e tabaco são ervas que partilham de um tom seco e esfumaçado; baunilha e fava tonka remetem a um aroma doce e polvoroso; anis, erva-doce e alcaçuz exalam odores canforados adocicados parecidos. Outro motivo para percepções confusas pode ser uma mera coincidência de aromas: couro é defumado como bétula e oleoso como castoreum; heliotrópio é licoroso como cereja e polvoroso como amêndoas; patchouli é canforado como eucalipto e encorpado como cacau. Essa seleção já é um bom ponto de partida para você fazer alguns testes às cegas e comparar os resultados com as listas de notas de cada perfume.

10502425_384996224997316_3322627845218904915_nAnatomia e pirâmide olfativa | Para aproveitar bem a experiência de aplicar um perfume, é crucial entender sua anatomia. Quando se aplica um perfume na pele, há uma evolução e alteração de odor. Nos primeiros minutos ele tem uma característica, depois muda um pouco ou totalmente. Percebe-se que no dia seguinte ficou um cheirinho no travesseiro que também é diferente. Isso se deve à forma como o perfume é construído (arte) e também, é claro, a conceitos químicos (ciência). Se você ainda se lembra das aulas de química do colégio, sabe que moléculas se desprendem mais facilmente com o calor e que algumas são mais voláteis que outras. O mesmo se aplica a uma fragrância. Moléculas amadeiradas, por exemplo, são mais agregadas e, portanto, ótimas como notas de base ou fundo. Moléculas cítricas, por outro lado, são mais fugazes, portanto ótimas como notas de cabeça ou saída. Um perfumista começa a compor a fragrância pela base (notas de fundo), normalmente amadeirada ou ambarada. Depois trabalha o coração – que dá caráter e personalidade à criação – para finalmente concluir com as notas de cabeça, normalmente cítricas ou herbáceas. Um perfume bem elaborado é construído com as três fases da pirâmide olfativa para não ter aspecto abafado e funcional.

10294449_392742504222688_7089579595513025032_nNatural e sintético | A revolução química do século XIX ampliou as possibilidades da perfumaria vertiginosamente. Com a síntese da vanilina para substituir a baunilha (cujos custos de extração da essência são altíssimos), a casa Guerlain lançou em 1889 Jicky – um perfume com uma nota marcante de baunilha obtida através desse composto artificial. Mas afinal, o que é melhor: um perfume natural ou um perfume sintético? O melhor perfume é, na verdade, aquele que combina elementos naturais e sintéticos. Elementos naturais têm a desvantagem de serem mais propensos a causar reações adversas em seres humanos, enquanto os sintéticos são manipulados em laboratório já com esta preocupação (embora alguns sintéticos possam ser alérgenos). Um odor sintético quando tenta imitar um odor encontrado na natureza não tem a mesma força e riqueza, salvo raríssimas exceções (como a cumarina). Se você quiser provar um perfume inteiramente natural, vá a uma loja da Lush – casa que atende o nicho orgânico. Suas criações mostram o que é um perfume natural – vívido, forte, adstringente, quase medicinal. Muitos gostam, mas a maioria rejeitaria. Perfumistas competentes sabem trabalhar o natural e o sintético de forma que um complemente o outro e que sua combinação produza um resultado belo e eficiente.

10934019_407831222713816_4441727017399421386_nProjeção, silagem e fixação | Além do cheiro do perfume, é importante avaliar o seu desempenho. Perfumes promovidos em free shops podem ser perigosos, pois quase sempre têm notas de saída incríveis e são feitos para quem escolhe uma fragrância no estresse de pegar o voo e não tem muito tempo para testar. Quando começa o uso no dia a dia, a frustração aparece. Desta forma, é bom entender estes três conceitos: projeção, silagem e fixação. Projeção é o quanto um perfume exala e pode ser sentido por outros à sua volta. Perfume de baixa projeção é rente à pele e só pode ser sentido por alguém com quem você esteja em situação de intimidade. Silagem é quase isso, mas está mais relacionada ao rastro que ele deixa no ar, ou seja, você já foi embora e o perfume permanece por onde você passou. A fixação (ou longevidade ou lasting) é o tempo que uma fragrância permanece ativa na pele, ou seja, mantendo a projeção, sem desandar. Vários fatores influenciam o desempenho de um perfume: tipo de pele (quanto mais oleosa melhor), clima (quanto mais quente e úmido melhor) e qualidade do perfume. Um perfume de qualidade deve possuir uma estrutura que possibilite bom desempenho na pele e não tenha cheiro totalmente sintético. Em minha opinião, seis horas de fixação é excelente, mas consumidores estão cada vez mais exigentes e pedem fixação de doze horas.

10929212_405792672917671_3364795915637925428_nQuímica da pele | Por que o mesmo perfume tem cheiro diferente em pessoas diferentes? Este é mais um dos maiores mistérios que tornam o universo de fragrâncias tão excitante. O cheiro muda basicamente por dois motivos: pela complexidade da pele e da fragrância. Se estivéssemos falando de apenas um componente – por exemplo, absoluto de rosas – e colocássemos uma gota dele sobre uma superfície de vidro, as moléculas de rosa aos poucos exalariam e sentiríamos seu odor. Repetindo o mesmo experimento, o aroma seria o mesmo. Se trocássemos a base de vidro por outro material, a dissipação molecular já seria diferente. Agora imagine um perfume com dezenas de componentes borrifado sobre uma pele humana constituída de água, gordura, proteínas, fibras, pelos, ácidos graxos, sais e açúcares… O maior impacto na performance de uma fragrância pode ser resumido ao nível de oleosidade da pele. Peles secas (especialmente logo após o banho) tendem a absorver mais do que peles oleosas, diminuindo assim a projeção das moléculas fragrantes no ar. A solução é a aplicação de um hidratante sem cheiro antes de se borrifar o perfume. Fatores como alimentação e consumo de álcool/drogas têm bem menos impacto do que reza a lenda.

10425517_391810434315895_1607475434551138643_nConcentrações | Os primeiros perfumes foram as águas de colônia (usadas tanto para refrescar quanto curar doenças estomacais), com uma concentração de 5%, e os extratos/parfums (para encobrir maus odores ou serem usados em ocasiões especiais), com uma concentração entre 20 e 40% (hoje de 15 a 25%). Com a evolução da perfumaria, surgiu a necessidade de fragrâncias mais “práticas” para se usar no dia a dia e logo vieram os eaux de toilette (faire sa toilette em francês significa se arrumar), numa concentração intermediária. Por último surgiu a concentração eau de parfum, apropriada tanto para o dia quanto para a noite. A mudança de concentração na perfumaria moderna, porém, não implica apenas em maior ou menor projeção da fragrância – perfumistas contemporâneos compõem um EDT com notas mais leves e luminosas para uso casual, enquanto um EDP é feito com notas mais ambaradas e que deixem rastro. Oferecer diferentes concentrações acabou se tornando um estratégia de marketing, especialmente por ser algo manipulável. Um EDT pode facilmente virar EDP com a adição de ingredientes de baixo custo, apenas para “preencher a quota”. Por outro lado, nem sempre um EDP é melhor do que um EDT ou um extrato é melhor do que um EDP – isso vai depender da qualidade da composição e do gosto pessoal de cada um.

11050722_433740176789587_4631727205641829763_oFrascos | Na época em que perfumes eram vendidos em frascos de remédios independentemente de sua qualidade e refinamento, François Coty teve a ideia de fazer com que o continente refletisse o conteúdo. Para tanto, Coty pediu que seu então vizinho René Lalique criasse rótulos dourados em alto relevo para suas fragrâncias, e Lalique aceitou contanto que pudesse fazer também o design dos frascos. A primeira criação de Coty a receber um frasco de luxo foi L’Effleur, que trouxe fama instantânea a Lalique e consolidou a liderança de Coty no mercado de fragrâncias. A parceria continuou por muitos anos e os dois gênios trabalharam juntos em L’Origan, Ambre Antique, Paris, Emeraude e Chypre. Posteriormente Lalique começou a trabalhar com outras casas como D’Orsay, Roger & Gallet e Worth. Coty esteve à frente de seu tempo ao entender que, por o perfume ser um produto praticamente intangível, o frasco cumpria o papel de comunicar aos consumidores sua proposta através de seu design (formato, textura, cores, material e peso), podendo ser clássico ou moderno, austero ou sensual, simples ou exuberante. Exemplos de perfumes que se tornaram ícones devido aos seus frascos revolucionários: Chanel No. 5, Shalimar, Femme de Rochas, L’Air du Temps, Opium, Poison, Angel, CK One, Le Mâle, Rush, Flower e 1 Million.

10805556_386895608140711_332785710399005896_nValidade | Quanto tempo dura um perfume? Essa é uma das perguntas mais frequentes no universo das fragrâncias. É claro que quem gosta de perfumes têm a preocupação de mantê-los em bom estado e espera o mesmo de quem os vende. Ainda que o rótulo indique 12-36 meses, esse período é arbitrário. As seguintes variáveis influenciam na validade de um perfume: temperatura, luz, ar e tipo da composição. Altas temperaturas ajudam moléculas a se dissociar, principalmente as notas de saída (o ideal é manter o perfume sob 12ºC). A luz, especialmente a natural, também deteriora a fragrância, que deve ser mantida em ambiente escuro. Um frasco deixado em cima da pia do banheiro certamente durará menos de um ano. Outro fator que pouca gente considera é o ar – quanto mais o perfume entra em contato com o ar, mais ele oxida e deteriora. Cada vez que você dá uma borrifada um pouco de ar entra no frasco, ou seja, um frasco com 20% de volume restante oxidará rapidamente. Finalmente, a densidade da fórmula também impacta na duração da fragrância: os cítricos expiram mais rapidamente que os orientais. Ah, amostras de 1 ml são perfeitas para conhecer uma fragrância nova, mas como têm uma superfície de contato proporcionalmente muito maior do que um frasco, devem ser utilizadas rapidamente. Mantidas as condições ideais, um perfume pode durar décadas sem perder suas características principais.

10361032_420118221485116_2177852181847917602_nAttares Também conhecido por “ittar”, trata-se de um óleo perfumado comum às culturas milenares do Oriente Médio, Índia, Bangladesh e Paquistão. Praticamente natural, o attar é montado com extratos de flores, ervas e sementes obtidos através do método de destilação a vapor e transferidos para uma base de sândalo para maceração e envelhecimento de um a dez anos. Com textura viscosa, o perfume é aplicado na pele onde se revela inicialmente agressivo, pois não tem a mesma estrutura de pirâmide trifásica de uma fragrância ocidental típica, que conta com a ajuda de álcool para volatizar o líquido – o attar não contém álcool devido a restrições religiosas e filosóficas. Ainda que o conceito de attar possa parecer estranho para nós, os orientais consideram a forma de óleo mais sensual e acreditam que o álcool prejudica o aroma natural dos ingredientes. Além de ser usado por homens e mulheres muçulmanas para sedução, o attar é também usado por hindus e budistas em práticas de meditação. Um attar é altamente concentrado e, portanto, é normalmente vendido em pequenos e delicados frascos de cristais (os itardans) como se fossem joias, com um aplicador na base da tampa. Algumas casas especializadas em attares: Ajmal, Al Haramain, Al Rehab, Swiss Arabian e Rasasi.

ChipreFougèreFougère e Chipre | Antes do surgimento do gênero oriental, as fragrâncias poderiam ser cítricas, herbáceas ou florais, com bases amadeiradas. O início da perfumaria foi figurativo, como se buscasse transportar os odores na natureza para pequenos frascos – por exemplo, os soliflores (focados em uma só flor). Assim como em outras artes, o modernismo chegou no século XX com a ideia da abstração e, com ele, a oportunidade de ousar, misturando gêneros. Em vez de captar o aroma de uma árvore, que tal a floresta inteira? Combinando-se o cítrico, floral, herbáceo e amadeirado, tipicamente bergamota, lavanda (com seu aspecto cremoso realçado por cumarina), ervas finas e musgo de carvalho, a perfumaria descobria um aroma seco, fresco e quente, rústico e elegante – o acorde fougère. Já a união de bergamota, rosa e/ou jasmim, vetiver (com seu aspecto esfumaçado realçado por labdanum) e musgo de carvalho resultava num aroma igualmente complexo, porém mais feminino – o acorde chipre. O Pós-Modernismo trouxe novas ideias para a perfumaria, fazendo com que tanto o fougère como o chipre ganhassem sua variação oriental. O primeiro preservou a dicotomia gelado-quente, porém com notas mais doces e picantes, enquanto o segundo ganhou uma nota achocolatada de patchouli e acordes frutados. Ambos baniram o odor “ardido” e úmido de líquen, tornando-se menos subversivos e mais puritanos.

10952575_418558424974429_7745303763770952352_oDerivações (flankers| Quando duas ou mais fragrâncias dentro da mesma grife se assemelham, elas podem ser consideradas flankers, extensões de linha ou coleção. Flanker é um perfume derivado de um best-seller e que pega carona na aceitação do público. Um flanker pode ter muito ou pouco a ver com o tradicional – no caso de Poison de Dior, todos os flankers são diferentes entre si, mantendo apenas o tema de flores brancas. Quando a derivação se constitui apenas de uma mudança na concentração, trata-se de uma extensão de linha. Às vezes o EDP é o primeiro a ser lançado, às vezes o EDT. Ainda que um EDP ou extrato inclinem-se mais para notas ambaradas e doces e um EDT ou colônia mais para notas aromáticas e frescas, a fragrância não é suficientemente diferente para ser chamada de flanker. É comum também que se use termos como “intense”, “extreme” e “absolute” – cabe nesse caso analisar as notas listadas para determinar se é um flanker ou uma extensão. Finalmente, quando perfumes têm um tema em comum como Un Jardin (Hermès), Escale (Dior) ou Les Exclusifs (Chanel), são chamados de coleção e podem ser lançados tanto aos poucos como todos ao mesmo tempo, não importando a concentração ou similaridade de notas.

1966692_395478927282379_7382162668093755735_nReformulações | Com a evolução das regulamentações, principalmente das europeias, cada vez mais ingredientes têm seu uso limitado na perfumaria a fim de minimizar dermatites de contato. Um exemplo clássico é o musgo de carvalho. Comprovadamente maléfico à saúde de seres humanos, o musgo de carvalho é usado, hoje em dia, em doses mínimas, se não substituído por sintéticos como evernyl ou veramoss. Isso influenciou a composição de grandes obras-primas chipres, que foram reformuladas ou descontinuadas. A decisão de descontinuar uma fragrância, ou seja, tirá-la do mercado, é de cada marca. Se o perfume não vender o suficiente para gerar lucro, será descontinuado. Se o perfume é um clássico, certamente será reformulado. Mesmo uma reformulação bem feita dificilmente será igual à original, pois moléculas naturais serão substituídas por moléculas sintéticas ou moléculas sintéticas terão que ser limitadas ou substituídas por outras. Para consumidores mais exigentes, existe o mercado dos vintages. 

10368387_387909168039355_3275905024815614920_nClássico, old school, vintage e retrô | Assim como todos os setores da vida, a perfumaria também sofre a influência do tempo e o valor percebido de um produto pode variar. Um perfume clássico é aquele que transcende a barreira do tempo e que continua atual, sem ter sido alterado (Eau Sauvage, Shalimar, etc). É o vestidinho preto que nunca saiu de moda. Um perfume old school é aquele percebido como antiquado, fora de seu tempo e que também têm seus fãs (Équipage, L’Air du Temps, etc). Já a diferença entre vintage e retrô é mais sutil e muita gente confunde os dois conceitos. Uma fragrância vintage tem pelo menos vinte anos e manteve suas características iniciais, ou seja, o valor de um vintage é a preservação do conceito original. Custa mais caro, pois é mais raro. Uma simples reformulação não torna um perfume vintage, pois o distanciamento temporal faz parte do conceito. Por outro lado, uma fragrância retrô é aquela que revisita, atualiza um clássico, tentando manter a essência da fórmula ao mesmo tempo em que busca um apelo mais moderno (No. 5 Eau Première, Shalimar Initial, etc).

11043204_434824700014468_7908717979962687337_nMitos | Tudo o que é pouco conhecido é suscetível a mitos, e nada mais misterioso do que o nosso olfato e, consequentemente, o mundo do perfume. MITO 1: Cheirar grãos de café “limpa” o olfato. Ao contrário do que pregam os vendedores de loja, o café não dá um reset no nariz e sim o cansa ainda mais. O melhor é cheirar algo sem odor forte ou tomar um gole de água. MITO 2: Esfregar o perfume na pele quebra suas moléculas. O calor da fricção de fato pode acelerar a evaporação do perfume, porém para romper as ligas de átomos seriam necessários alguns equipamentos de laboratório. MITO 3: Perfumes devem ter bom fixador. A capacidade de um perfume durar mais ou menos na pele depende da construção e dos ingredientes escolhidos, ou seja, está diretamente relacionada à competência do perfumista. MITO 4: Existem perfumes para homens e perfumes para mulheres. Na realidade a percepção de virilidade ou feminilidade está embutida nas associações de cada indivíduo. Rótulos servem apenas para organizar o mercado e maximizar vendas. MITO 5: Perfumes naturais são melhores. Em média, 90% de um perfume é sintético e a percepção do quão natural ele é depende do talento do perfumista em combinar os ingredientes. MITO 6: Perfumes caros são melhores. A precificação de um perfume é basicamente resultado de posicionamento, escala e disponibilidade, pouco tendo a ver com a qualidade. MITO 7: “O que eu ingiro influencia no desempenho do perfume na minha pele”. Na verdade, o fator de maior impacto é o nível de oleosidade dérmica – quanto maior, menos o perfume será absorvido e mais ele exalará.10994169_429270910569847_815682747327103472_n

Perfume para dormir | Muitas pessoas enxergam o perfume apenas como um acessório para encantar e seduzir, mas outras focam na relação do “sentir o cheiro” com o seu bem-estar. É sabido que fragrâncias podem nos fazer sentir melhor, mas e na hora do sono? Enquanto dormimos nosso olfato regride e captamos menos os odores à nossa volta, porém um perfume pode fazer a diferença no adormecer e no despertar – dois momentos fundamentais na vida do homem moderno. Alguns aromas são especialmente eficazes: lavanda, bergamota, jasmim, rosa e baunilha. A lavanda é a vencedora em todos os quesitos na luta contra insônia, ansiedade, depressão e fatiga, sendo útil tanto na hora de dormir quanto de acordar (estudos mostram indivíduos mais energizados no despertar). O aroma refrescante e agridoce de bergamota é também uma ótima opção e a escolha de muitas cadeias de hotéis para aromatizadores de ambientes e artigos de higiene pessoal. Jasmim e rosa aumentam a qualidade do sono, bem como a memória no dia seguinte segundo diversos estudos. Finalmente, o aroma de baunilha é reconhecido como antidepressivo e calmante, diminuindo a pressão sanguínea e trazendo uma sensação de bem-estar.

2014-11-18_17-13-16Livros e sites para referência | Para aqueles que quiserem explorar ainda mais este universo fantástico, recomendo os livros de minha autoria: 202 Perfumes para Provar Antes de Morrer – Edição Masculina e 303 Perfumes para Provar Antes de Morrer – Edição Feminina. Além deles, recomendo os seguintes livros: O Perfume (romance de Patrick Süskind), Diário de um Perfumista (Jean-Claude Ellena), The Emperor of Scent – A History of Perfume and Obsession (Chandler Burr), The Secret of Scent: Adventures in Perfume and the Science of Smell (Luca Turin) e Scent and Subversion: Decoding a Century of Provocative Perfume (Barbara Herman). Os livros que estão disponíveis somente em inglês podem ser comprados facilmente pela Amazon. Os fóruns virtuais mais relevantes são: Fragrantica, Basenotes e Parfumo. Fragrantica é mais casual e feito para leigos – muito rico em informações de lançamentos. Basenotes e Parfumo são voltados para quem é mais experiente – ganham em termos de qualidade de resenhas. Existem também diversos grupos de perfume no Facebook, cada um com um tipo de público – uma hora encontrará o ideal para você.

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14 pensamentos sobre “Conceitos Básicos

  1. Daniel, seus textos são ótimos…foram importantes para mim(ousando ser uma perfumista mais ou menos à moda antiga)…..eu extraio óleos essenciais e faço extratos….mas agora quero ir mais além, e combinar esse conhecimento antigo com a tecnologia….não quero minhas criações 100% sintéticas….mas também não me iludo com a possibilidade de algo 100% bio , não pelo menos ainda…..novas tecnologias bio ainda são ao alcance de megaindustriais, além do mais as pessoas já foram treinadas(viciadas) e então exigem fórmulas cada vez mais fortes…tipo quem é viciado em refrigerante e não se contenta mais com sucos de frutas……porque seu paladar vai perdendo a força e adormecendo as glãndulas(açúcar faz isso)rs,rs,rs…..sintéticos idem,rs,rs….

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