Icônicos (Históricos)

IconicosCom liberdade total (ou quase) na escolha de ingredientes, perfumistas pré-IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias fundada em 1973) empregavam os mais potentes extratos naturais (vegetais ou animais) e moléculas sintéticas para produzir um efeito único e com desempenho irrepreensível. Infelizmente suas criações desapareceram (ou ficaram irreconhecíveis depois de reformulações) e somente podem hoje ser encontradas em mercados eletrônicos como o eBay a preços estratosféricos. No entanto, é sempre importante revisitar esses perfumes tanto quanto possível para poder entender como a perfumaria moderna foi alicerçada. Um perfume é considerado ícônico quando causou um impacto significativo na indústria ou no comportamento do consumidor, ou seja, inaugurando um gênero ou família olfativa, trazendo consigo um novo componente (natural ou sintético), criando um estilo ou moda ou, ainda, introduzindo uma nova forma de promoção e divulgação. 

(ordem cronológica por ano de lançamento)

11438_ifwfjh_fougere_royale_1882_2401. Fougère Royale (Houbigant, 1882). Fougère é uma das famílias olfativas mais comuns da perfumaria embora o termo “fougère” seja pouco usado (curiosamente significa “samambaia” em francês). Sabe aquele aroma que imediatamente remete ao universo masculino? Um aspecto herbáceo, meio amadeirado e ligeiramente amendoado. O acorde fougère é justamente a união das notas de cumarina, lavanda e musgo de carvalho. A cumarina é uma resina extraída da fava tonka cujo aspecto amendoado ressalta o lado cremoso da lavanda, que também tem seu lado fresco e aromático. O musgo de carvalho confere o toque rústico e seco e traz virilidade à composição. O gênero nasceu com a criação da fragrância Fougère Royale pela casa Houbigant em 1882 graças à síntese da cumarina (sua extração é caríssima). O gênero fougère evoluiu para se adaptar às tendências modernas e passou de estilo musgoso e sério para aromático e descontraído, sempre mantendo sua masculinidade característica. Para tornar-se mais fresco, um perfume fougère muitas vezes tem vibe de barbearia por causa da adição de notas mentoladas. 

jicky-perfume-by-guerlain_32. Jicky (Guerlain, 1889). Lançado exatamente 100 anos depois da Revolução Francesa, Jicky é o mais antigo perfume à venda no mundo. Ao incorporar vanilina (versão sintética do caríssimo extrato de baunilha), tornou-se a primeira fragrância moderna da história. Com sua estrutura minimalista, Jicky gira em torno do acorde lavanda-baunilha, com uma grande injeção de notas cítricas no topo. A famosa guerlinade é enriquecida com ervas, especiarias, patchouli, couro, almíscar e civet, gerando um interessante efeito de fogo e gelo. Na época de seu lançamento (1889) o perfume chocou pela estridência da sua nota de civet, fazendo com que as mulheres levassem anos para adotá-lo – apenas os homens tinham coragem de usá-lo. Alguns dizem que Jicky foi criado pelo perfumista Aimé Guerlain em homenagem à sua namorada inglesa, outros que foi batizado com o nome de seu sobrinho. Embora Fougère Royale tenha sido o primeiro perfume a incorporar a cumarina sintética (reproduzindo seu aroma amendoado), Jicky foi além ao combinar cumarina e vanilina na mesma fórmula. Curiosamente, o perfume é classificado como feminino, apesar de ser claramente um fougère

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3. L’Heure Bleue (Guerlain, 1912). Inspirado em L’Origan de Coty e em Après l’Ondée da própria Guerlain, este perfume é um oriental floral de grande personalidade e substância. Carregado de heliotropina para dar o efeito amendoado e de aldeídos para dar uma “turbinada” nas notas florais, L’Heure Bleue é uma composição densa e brilhante com ampla silagem e longa fixação. Sua complexa fórmula inclui um acorde picante de flor de cravo, ylang-ylang e anis e outro polvoroso de íris, baunilha e almíscar. A combinação de eugenol (aroma característico do cravo) e iononas (aroma atalcado de íris e violeta) produz uma aura nostálgica, romântica e levemente melancólica, como o próprio nome insinua (A Hora Azul). L’Heure Bleue inspirou diversos perfumes contemporâneos como Insolence, Kenzo Flower e Sun Moon Stars.

houbigant-quelques-fleurs-loriginal-novedad-perfumes4. Quelques Fleurs (Houbigant, 1913). Ao compor uma fragrância com base num buquê de várias flores diferentes, a casa Houbigant revolucionou a perfumaria quando lançou Quelques Fleurs (algumas flores em francês) em 1913. Até então, perfumes florais eram criados com base numa única flor (soliflor) e depois recortados por ervas aromáticas e outras matérias-primas. Obviamente o sucesso de Quelques Fleurs não é devido somente à sua diversidade floral, mas sim à harmonia entre as notas: tuberosa, jasmim, muguê, ylang-ylang, flor de laranjeira, rosa, íris, lilás, heliotrópio, violeta e cravo. A saída é verde, cítrica e aldeídica e a secagem amadeirada. Diz a lenda que mais de 250 matérias-primas foram utilizadas em sua fórmula e que mais de 15 mil pétalas de flores foram necessárias para preencher um único frasco de 100 ml. A Houbigant lançou posteriormente Quelques Fleurs Royale, uma variação cítrica do original. Embora ainda esteja disponível para venda, a versão atual do Quelques Fleurs original foi extensivamente reformulada, deixando de ser novidade e de ter seu diferencial.

1579_a3pakd_chypre_de_coty_2405. Chypre (Coty, 1917). Uma das famílias mais importantes da perfumaria surgiu em 1917 através de uma criação da Coty – uma das casas de fragrâncias mais importantes do mundo, que ao longo de um século passou de perfumes icônicos a perfumes de ícones (a maioria dos perfumes de celebridades é criada pela Coty). Inspirado na ilha de Chipre (onde teria nascido Vênus, a deusa do amor e da beleza), François Coty uniu o frescor cítrico da bergamota com a umidade austera do musgo de carvalho e o calor encorpado do labdanum. Chypre serviu de base para muitas novas criações, que começaram a receber notas florais para ficar menos “duras” e com mais personalidade, tornando Chypre o perfume mais copiado do mundo. Com o aumento de restrições ao uso do musgo de carvalho devido a dermatites de contato e também à demanda de consumidores por “modernidade”, os chipres de hoje dão mais ênfase ao patchouli. O odor amargo e seco do líquen (além das nuances das notas animálicas) agora cede seu lugar a frutas suculentas ou baunilha, distanciando-se bastante do aroma que antes remetia a “casa de campo antiga”. 

0151256. Mitsouko (Guerlain, 1919). Depois do lançamento de Chypre de Coty, a casa Guerlain apostou no novo gênero e acrescentou camadas de flores e frutas para deixá-lo mais atraente. Rumores dizem que a fragrância nasceu de um romance entre Jacques Guerlain e uma jovem japonesa. O perfumista tomou Chypre como base (acorde cítrico, resinoso e amargo de bergamota, labdanum e musgo de carvalho) e o “vestiu” com uma camada lactônica de pêssego e outra atalcada de íris. No fundo, sentimos a pungência de especiarias diversas e a terrosidade do vetiver conferindo uma aura nobre e quase mística a esta obra. Mitsouko, com sua injeção de fruta madura tornou o gênero chipre mais sexy e lascivo, saindo da atmosfera original de floresta úmida e seguindo o caminho mais erótico. Por sinal, no filme “A Bela da Tarde”, a prostituta Catherine Deneuve derruba (e quebra) um frasco de Mitsouko em seu banheiro antes de atender um cliente. Próximo de completar 100 anos, Mitsouko mantém-se como referência de chipre clássico.

vhabanita0jpg_17. Habanita (Molinard, 1921). Este perfume foi originalmente lançado pela Molinard em 1921 em forma de pequenos sachês para aromatizar cigarros, com o propósito de cobrir o rastro de fumaça com um aroma delicioso. Alguns anos depois, a Molinard decidiu comercializá-lo como perfume dentro de um frasco desenhado pela Lalique, mantendo a mesma atmosfera decadente da fragrância. Habanita tem uma composição bastante complexa que vai de notas florais delicadas a uma base sólida de couro, vetiver e tabaco. A fragrância também exala um aroma frutado e ambarado, com um toque de baunilha. A sensualidade de Habanita está justamente na ousadia de exalar um cheiro não-convencional, que apenas uma mulher bem-resolvida seria capaz de fazê-lo. Por outro lado, o perfume confere um aspecto confortável, levemente polvoroso, remetendo aos antigos cafés de Paris, onde podia-se fumar livremente. Habanita talvez seja datado mas nem por isso menos interessante.

chanel-no-5-perfume8. N°5 (Chanel, 1921). O perfume mais famoso (e também o mais vendido) do mundo deve seu sucesso a uma história cheia de mistérios. Em 1920, por meio de um amante russo, Coco Chanel foi apresentada a Ernest Beaux, perfumista oficial da então deposta família real russa. Inicialmente, a ideia de Beaux era produzir uma versão melhorada de Quelques Fleurs que também abarcasse a ideia de Coco de mesclar elementos castos e sensuais, sagrados e profanos. Para tanto, o perfumista buscou nos aldeídos um diferencial. Diz a lenda que devido ao erro humano de um assistente de laboratório a amostra de número 5 foi produzida com uma quantidade de aldeídos dez vezes maior do que o especificado. Coco, ligada desde a juventude à mística do número 5, aprovou-a sem hesitação, dizendo ser a que representava exatamente sua visão da mulher moderna. Os aldeídos, que em princípio serviriam apenas para “iluminar” as notas florais, passaram à posição de protagonistas, conferindo uma aura de sofisticação e limpeza em meio aos componentes florais e carnais da fórmula. Lançado em 05/05/1921, Chanel N° 5 no início não era vendido e sim presenteado aos clientes mais importantes da maison, até que anos depois foi disponibilizado ao grande público e tornou-se sucesso universal após a II Guerra Mundial.

10882175_402334566596815_6679628788412926117_n9. Shalimar (Guerlain, 1925). Assim como Chypre e Fougère Royale deram origem a novos gêneros na perfumaria, Shalimar inaugurou o gênero dos orientais quando foi lançado em 1925 pela casa Guerlain. O nome foi inspirado no jardim homônimo em que o imperador Shahjahan costumava caminhar com sua esposa Mumtaz Mahal (sua morte levou à construção do maior mausoléu do mundo – o Taj Mahal). Intrigado pelo poder afrodisíaco da recém-sintetizada baunilha (vanilina), o perfumista Jacques Guerlain resolveu acrescentar uma grande porção desse componente a Jicky, um best-seller da casa. Nasceu aí a primeira noção do que Shalimar poderia ser: um acorde extravagante de baunilha, cumarina, opoponax, benjoim e olíbano. A magia desse coquetel de resinas se deve à belíssima construção que se revela em três atos: uma poderosa saída cítrica, um coração floral e terroso (rosa, jasmim, íris, vetiver, patchouli) e um dry-down ambarado e polvoroso (resinas, couro, sândalo, almíscar e civet). O resultado é um perfume que enfatiza a delicadeza da mulher por meio de notas suaves e atalcadas mas também sua visceralidade por meio de notas balsâmicas e animálicas. 

lanvin_arpege_parfum_d221cbc21210. Arpège (Lanvin, 1927). O nome foi escolha da filha do perfumista André Fraysse, que estudava música, e significa arpejo ou à maneira de harpa. Seguindo a iniciativa de Poiret e Chanel, Madame Lanvin obteve um estrondoso sucesso com este floral aldeídico, que chegou a aparecer com destaque no filme “A Malvada” na penteadeira da personagem interpretada por Bette Davis. Arpège é um perfume feminino, extremamente sofisticado, que invoca um ambiente de requinte como uma festa de gala. Apesar de ser essencialmente floral, a fragrância pende para um lado mais escuro devido às notas amadeiradas de patchouli e sândalo, portanto, mais refinada do que romântica. Desta forma, Arpège distancia-se de Chanel No. 5, que está mais para um buquê floral luminoso, e segue um caminho mais misterioso e sensual. A nova formulação de 1993 se aproxima bastante da versão original.

Jean-Patou-Joy-Eau-de-Parfum-1-6-oz11. Joy (Patou, 1929). Referência de luxo na perfumaria, Joy foi lançado por Jean Patou no epicentro da Grande Depressão. Sua propaganda o anunciava como sendo o perfume mais caro do mundo devido a quantidade de matérias-primas naturais utilizadas em sua fórmula (10 mil pétalas de jasmim e 28 dúzias de rosas para cada frasco). Patou teve o cuidado de monitorar as plantações de Jasminum grandiflorum e Rosa centifolia cultivadas em Grasse e Rosa damascena vinda da Bulgária. No fundo, Joy foi a solução perfeita de Patou para agradar seus clientes que não podiam mais pagar por suas roupas, mas poderiam levar um perfume luxuoso para casa. Ancorada no acorde jasmim-rosa, a fragrância abre com aldeídos, pêssego e notas verdes, que formam uma saída saponácea e elegante. Logo o coração floral aparece e domina completamente a composição, com um efeito quente e sensual. Joy finaliza com sândalo, civet e musk, exalando uma nuvem de estrógeno por onde passa. Joy permanece como uma das grandes referências de florais potentes.

10363696_432204046943200_316134265786466451_n12. Tabu (Dana, 1932). Perfume oriental clássico, Tabu foi lançado por Dana em 1932. Javier Sera, fundador da casa Dana, aproveitou a erupção sexual que ocorreu entre as duas Guerras Mundais e encomendou um perfume que chegasse próximo ao limite da promiscuidade. O perfume foi criado por Jean Carles, renomado autor de composições como Ma Griffe, Shocking e Miss Dior. De fato, mulheres acostumadas com criações prévias de Carles consideraram Tabu um perfume de prostituta. Para produzir esta aura, dois acordes foram usados: o floral-patchouli-especiarias e o civet-labdanum-almíscar. As notas cítricas e florais listadas praticamente não aparecem, ou ficam assistindo a tudo pelo vão da fechadura. O resultado é um aroma viscoso e medicinal, picante e ardido. Apesar de sua reputação exagerada, Tabu é um perfume opulento mas confortável, que pode ser apreciado tanto por homens quanto mulheres. A propaganda com imagens provocantes é um case em si e um dos fatores que levaram Tabu a se tornar um perfume icônico.

caron_pour_un_homme13. Pour un Homme (Caron, 1934). A época era de recessão econômica (Crise de 1929) e as pessoas (especialmente os homens) precisavam ser reconfortadas. O perfumista e fundador da casa Caron Ernest Daltroff decidiu então apostar numa composição masculina à base de lavanda e baunilha, temperada com bergamota, rosa, ervas finas, musgo de carvalho, fava tonka e almíscar. A ideia era “anabolizar” o efeito amendoado e gelado da lavanda ao acrescentar matérias-primas com essas características polarizantes. O resultado foi um aroma polvoroso e doce, porém sem ser enjoativo. Pour un Homme foi tão bem aceito que se tornou o perfume padrão para homens naquele tempo. Seu slogan nos anos 50 resumia bem: “um perfume estimulante e penetrante”. Pour un Homme serviu de inspiração para diversos fougères orientais modernos como Joop Homme, Dreamer e Le Mâle.

OldSpice14. Old Spice (Shulton, 1938). Apesar do rótulo mostrar “cologne”, não se engane – os americanos ainda resistem a chamar de perfume uma fragrância feita para homens. Por outro lado, Old Spice é bastante fiel ao nome: um buquê de especiarias (anis, canela, pimenta, cravo, noz moscada) amenizado por cítricos, aldeídos, jasmim e gerânio, e sustentado por uma base de heliotrópio, benjoim, fava tonka, incenso, baunilha e musk. Sua mágica está justamente no choque entre o gelado-luminoso e o quente-picante. Old Spice fez tanto sucesso que acabou ofuscando totalmente sua versão feminina, lançada no ano anterior. Ainda que os homens não estivessem na época habituados ao hábito de se perfumar, a fragrância foi o primeiro passado na direção certa. Com ele vieram acessórios para cuidados pessoais masculinos, especialmente desodorantes e loções pós-barba. Em 1990, a marca foi adquirada pelo grupo Procter & Gamble, que decidiu não só preservar esse símbolo da cultura americana como também reforçá-lo com extensões de linha. Old Spice ainda é um hit nos Estados Unidos e recentemente entrou no mercado brasileiro apenas no formato de desodorante.

nd.1876415. Femme (Rochas, 1944). O perfumista Edmond Roudnitska teria afirmado que criou Femme para Rochas durante um dos piores dias da II Guerra Mundial, no interior de uma fábrica em Paris. O resultado foi um dos perfumes mais sedutores e arrebatadores jamais vistos. Roudnitska tomou como base um acorde firme de âmbar, patchouli e musgo de carvalho, temperou-o com cominho e agregou o sintético gamma undecalactone (também conhecido como aldeído C14). Tal sintético já havia sido utilizado em Mitsouko, porém não em tamanha proporção. Femme se tornou uma fragrância com uma abundância de curvas, extremamente feminina – o que também é refletido no seu frasco em forma de um corpo feminino voluptuoso. Femme inspirou outroas fragrâncias como Dolce Vita e Yvresse.

bandit-de-robert-piguet_50ml_edp16. Bandit (Piguet, 1944). Chipre de couro lançado no meio da II Guerra Mundial e fortemente inspirado por ela, Bandit foi composto pela perfumista Germaine Cellier. Este é um daqueles perfumes incrivelmente complexos, barrocos, misteriosos. À época de sua introdução, foi considerado ousado devido à sua base masculina chipre de couro e tabaco. A nota de couro tem aqui um caráter oleoso (quase de gasolina), emparelhado ao tom defumado do tabaco. Uma boa dose de civet é notável e faz parte da polêmica. A própria Germaine teria dito que Fracas estava para as mulheres femininas assim como Bandit estava para as “sapatonas”. Numa época em que a homossexualidade era mais do que tabu, o perfume era um dos instrumentos que dava as dicas na convívio social. E Bandit fez a sua contribuição.

0012575_balmain-vent-vert17. Vent Vert (Balmain, 1947). A casa Balmain lançou em 1947, logo após o término da II Guerra Mundial, este perfume inovador por carregar uma dose anormal de gálbano (resina vegetal de odor seco e terroso que remete a cenoura e talo de alface). “Vento verde” em francês, Vent Vert inovou ao trazer as folhas das flores ao invés de somente as pétalas. O emprego do gálbano trouxe uma nova possibilidade de perfumes femininos frescos e arejados, aparentemente casando com a necessidade dos consumidores da época. A fragrância abre selvagem e crua como uma salada de rúcula, aos poucos trazendo à superfície um sabonete fresco e limpo com um misto de ervas aromáticas e especiadas. Vent Vert fecha com uma base amadeirada e levemente picante. Seu aspecto geral é floral (rosa e jasmim) seco, amargo e levemente picante. Talvez hoje não seja tão marcante, mas numa época em que o mercado era dominado por perfumes ambarados e animálicos, Vent Vert um dia foi extraordinariamente original e serviu como um sopro de ar fresco.

18. Misnd.223s Dior (Dior, 1947). Tomando como base a estrutura básica de Chypre de Coty, o perfumista Jean Carles decidiu torná-lo mais floral e feminino. Assim, uniu um acorde especiado de cravo, pimenta e coentro a um acorde opulento de rosa, jasmim, tuberosa, íris e narciso. Para iluminar, o perfumista injetou uma dose de aldeídos e para aquecer construiu uma base de couro, âmbar e patchouli. Miss Dior dava origem, então, ao gênero dos chipres florais, repletos de brilho e charme. O perfume segue o famoso método de Jean Carles e vai revelando como um caleisdoscópio. Miss Dior inspirou múltiplos perfumes como Givenchy III e Magie Noire. A versão atual, contudo, nada tem a ver com o Miss Dior original, pois segue o gênero chipre floral moderno que é mais focado em patchouli e musk.

10980729_422707354559536_1409579912668508284_n19. L’Air du Temps (Nina Ricci, 1948). Criado em 1948, logo após o término da II Guerra Mundial, L’Air du Temps de Nina Ricci teve seu frasco desenhado pela Lalique, com uma pomba no topo simbolizando a paz (em 1999 foi eleito o frasco de perfume do século). Graças a uma fórmula única, L’Air du Temps é até hoje um dos perfumes mais reconhecíveis do mundo, inclusive citado no filme “O Silêncio dos Inocentes” quando Hannibal identifica a fragrância de Clarice. O perfumista Francis Frabron assina a composição com apenas 21 ingredientes, sendo a maioria flores envolvidas por uma alta dose de salicilato de benzila – um produto inovador na época que melhorava a projeção e silagem das moléculas, mas hoje completamente banido em perfumes. Eugenol e isoeugenol são adicionados à fórmula para finalizar o coração de L’Air du Temps: um buquê floral picante de cravo com um toque de pêssego. O perfume deixa um rastro polvoroso de musk, íris e âmbar. A estrutura de L’Air du Temps foi imitada em diversos sabonetes, desodorantes e sprays de cabelo por décadas e serviu de inspiração para Fidji (Guy Laroche), Anaïs Anaïs (Cacharel) e Madame Rochas. 

1021129920. Youth Dew (Estée Lauder, 1952). Este foi o perfume que colocou Estée Lauder no mapa das fragrâncias. Lançado inicialmente como um óleo para banho, Youth Dew mudou o hábito das mulheres, que não costumavam comprar seu próprio perfume. Como a própria cor do líquido indica, o perfume é um espesso oriental repleto de notas balsâmicas (estoraque, tolu, benjoim e peru), além de patchouli, incenso, civet e almíscar. Para trazer leveza à composição, foram adicionadas notas florais de rosa, muguê e jasmim e aromáticas de gerânio e camomila. Youth Dew se traduziu num perfume de presença e expressão que inspirou toda uma geração de mulheres. Sua atmosfera barroca inspirou outros perfumes escuros como Bal à Versailles, Opium e Coco. Mesmo com reformulações, Youth Dew continua bastante fiel ao original. Em 2005, a casa lançou o flanker Youth Dew Amber Nude com um aspecto balsâmico ainda mais evidente – infelizmente descontinuado apesar de seu enorme sucesso de vendas.

117450_a_LARGE21. Pour Monsieur (Chanel, 1955). Hoje em dia praticamente não se usa a expressão chipre para perfumes masculinos, mas nos anos 50 e 60 o gênero estava em voga dentro do universo da perfumaria masculina. O perfumista Henri Robert, a serviço da casa Chanel, compôs esta obra-prima com notas de néroli, cardamomo, cedro, vetiver, musk e baunilha ao redor do acorde chipre clássico. Pour Monsieur é um perfume complexo, que vai se abrindo aos poucos, transitando do cítrico-picante para o herbáceo-resinoso, sempre em perfeito equilíbrio. Apesar de ter sido lançado em 1955, esta fragrância é um clássico e funciona como uma peça-coringa no guarda-roupa. Não é, contudo, um perfume feito para chamar atenção. A Chanel lançou uma nova versão concentrada em 1988, criada pelo perfumista Jacques Polge, porém, ao contrário do que o nome indica, ela é mais leve e simplificada do que a original, e com muito menos personalidade.

diorissimo22. Diorissimo (Dior, 1956). Com a ambição de criar um perfume revolucionário que rompesse com a tendência de aromas doces e ambarados da época, o perfumista Edmond Roudnitska tomou como base o frescor e luminosidade do muguê, flor que Christian Dior considerava símbolo de esperança e felicidade. Ironicamente, na época era mais fácil compor perfumes pesados do que leves, já que vários sintéticos eram necessários garantir silagem e longevidade. Uma grande dose de hidroxicitronelal foi utilizada para reproduzir o aroma arejado e brilhante do lírio-do-vale, cercado de notas cítricas, verdes e amadeiradas, além de outras flores como amarílis, boronia, jasmim, ylang-ylang e lilás. Um toque de civet foi acrescentado para dar um aspecto orgânico e natural. O aspecto de orvalho de uma manhã de primavera fez enorme sucesso e contribuiu para toda uma geração de florais verdes que dominou os anos 60.

carven23. Vétiver (Carven, 1957). Na década de 50 o vetiver despontou como componente favorito. Dentro de um espaço de quatro anos Carven, Givenchy e Guerlain lançaram suas fragrâncias à base do rizoma, todas excelentes. Carven foi pioneiro ao lançar seu Vétiver em 1957, com uma composição suave e calma, feita para uma apreciação mais introspectiva do que para badalação. A matéria-prima em si é difícil de ser usada devido ao seu caráter defumado e levemente sujo, porém Vétiver de Carven é fresco e limpo, com uma superfície soapy. A fragrância revela traços terrosos e herbáceos (como esperado), com nuances de anis e sal. Depois de algumas horas, Vétiver se mostra quente e esfumaçado, com indícios de baunilha e cedro. O resultado é um perfume que fala da natureza e que traz tranquilidade. A versão atual vendidas nas lojas distancia-se bastante do original, mas vale a pena garimpar um vintage.

brut-faberge-cologne-spray-for-men-3-oz-88-ml-6344-1347630603kqjfuc24. Brut (Fabergé, 1964). Numa época em que perfumes eram acessórios femininos e colônias eram artigos de higiene masculinos, Fabergé rompeu uma importante barreira com seu slogan: “Se tiver dúvidas sobre si mesmo, use outra coisa”. Era a chamada para que homens pudessem aderir aos perfumes de forma séria e não apenas funcional. Lançado em 1964, Brut continha notas de lavanda, anis, limão, manjericão, bergamota, gerânio, ylang-ylang, jasmim, sândalo, vetiver, patchouli, musgo de carvalho, baunilha e fava tonka. Com a ajuda dos nitromusks, hoje banidos completamente da perfumaria, seu aroma era efervescente e levemente “sujo”, transmitindo a suposta essência do homem viril. Brut é denso e com imensa silagem, mas a versão moderna perde em muito sua característica orgânica e puxa mais para soapy. O perfume se tornou famoso graças a celebridades que o usavam, como Elvis Presley, e aparições em filmes, como James Bond, tornando-se a fragrância masculina mais popular das décadas de 60 e 70. Brut abriu caminho para os clássicos que vieram em seguida como Habit Rouge, Eau Sauvage, Aramis, Equipage e Monsieur Rochas. 

nd.1625. Habit Rouge (Guerlain, 1965). Quando foi lançado, em 1965, as mulheres contavam com inúmeras opções orientais da própria Guerlain (Jicky, Shalimar, L’Heure Bleue, entre outras), porém os homens eram obrigados a se contentar com o excelente Vétiver. Para remediar a situação, Jean-Paul Guerlain decidiu tomar como base o acorde DNA da casa – a guerlinade – e adicionou couro e opoponax para dar um caráter mais viril à composição. Mesmo sendo menos doce e voluptuoso, Habit Rouge teria a mesma imponência e sofisticação de Shalimar. O segredo do complexo oriental masculino estava no contraste entre as notas de abertura (frutas cítricas e ervas finas) e as notas de base (couro, madeiras nobres, resinas e musgo de carvalho). As notas florais de rosa e jasmim estavam lá escondidas, o suficiente para criar uma personalidade interessante mas sem chamar atenção. Habit Rouge foi importante para romper o paradigma de que homens deveriam se restringir a fragrâncias leves e funcionais e somente mulheres poderiam usar perfumes belos e opulentos. Infelizmente, hoje este ícone é considerado datado e dificilmente encontrado em lojas.

600526. Aramis (Aramis, 1966). Referência de couro desde que foi lançada, esta fragrância sobreviveu a muitas modas sendo sempre vista como uma das melhores verdadeiramente masculinas. Seu frasco tedioso não inspira muita excitação, mas está de acordo com sua proposta despretensiosa. Aramis contém várias notas florais (tipicamente femininas), tais como jasmim e gardênia, e até mesmo um âmbar docinho. No entanto, a secura e a amargura do couro, vetiver, patchouli e musgo de carvalho reinam absolutas. A versão original apresenta um couro mais oleoso e um cominho com cheiro de suor, características apreciadas na época. O interessante é que a marca Aramis foi criada por Estée Lauder para atingir o público masculino e o seu estilo de fragrâncias densas e complexas se extendeu até aqui. Não há dúvidas de que Aramis seja um perfume old school quando na atualidade a busca é pelos leves e frescos.

00009313927. Eau Sauvage (Dior, 1966). Lançado pela Dior em 1966, Eau Sauvage é um clássico que revolucionou a perfumaria. Pela primeira vez uma fragrância cítrica agora tinha a potência necessária para ser considerada de fato um perfume e não mais uma colônia. Pela primeira vez uma fragrância masculina poderia romper a barreira do funcional e higiênico e colocar um pé no cosmético. Buscando uma composição simples, o perfumista Edmond Roudnitska criou Eau Sauvage com base numa combinação de limão, jasmim, musgo de carvalho e vetiver. Como pano de fundo, manjericão e alecrim conferem um toque herbáceo e levemente especiado. A base chipre amarga e terrosa carrega a composição e produz uma aura limpa, fresca e elegante. O toque final e decisivo de Eau Sauvage foi a introdução de uma molécula sintética que capturava o efeito translúcido e fresco do jasmim (sem a parte cremosa e narcótica) – o hedione. Além de “levantar” a composição como um todo, o hedione prolonga o efeito fresco da fragrância. Eau Sauvage fez tanto sucesso que a Dior lançou em 1972 seu equivalente feminino – Diorella. Eau Sauvage nunca saiu de moda.

Charlie28. Charlie (Revlon, 1973). Lançado no meio do movimento feminista dos anos 70, Charlie tem especial significado para o hábito de compra de perfumes das mulheres. Não dá para desconsiderar que na época um seriado de televisão com três protagonistas independentes era um sucesso (“Charlie’s Angels” ou “As Panteras”, no Brasil). Apesar do nome andrógino, Charlie é um floral aldeídico bastante feminino com um buquê floral no centro da composição. O feminismo fica para a base de couro e madeiras nobres. Duas décadas depois do lançamento de Charlie, Revlon revolve comemorar com três flankers anuais. O primeiro deles foi Charlie Red, que sai do tema floral aldeídico para trazer nuances sensuais e envolventes na forma de um floral oriental. No ano seguinte, Revlon introduz Charlie White, voltado para o aquático e ozônico, bem ao estilo dos anos 90. O terceiro flanker comemorativo dos vinte anos de Charlie foi o oriental gourmand Charlie Red, uma composição que aposta nas frutas (mandarina, ameixa, pêssego, damasco), mas investe num acorde doce e picante de cravo-da-índia e caramelo. Todos ainda à venda por preços bem em conta nos Estados Unidos.

nd-739929. Opium (Yves Saint Laurent, 1977). Yves Saint Laurent chocou o mundo quando lançou em 1977 este perfume – até então especiarias eram usadas para realçar notas e não para ser o tema principal. Em resumo, Opium é uma mistura sedutora de especiarias, incenso, flores e frutas muito bem entrelaçadas e sustentadas por uma base rica em bálsamos e um toque afrodisíaco de castoreum. Por ser constituído principalmente de notas de base, sua desvantagem é ser um “perfume-bloco” que não evolui na pele. Muitos argumentam que sua fórmula foi “diluída” ao longo dos anos para que se tornasse mais comercial e não apenas um conceito artístico. Assim como Chanel N°5 foi ícone de elegância atemporal, Opium foi ícone de mistério e sedução. Além disso, ele tem importância histórica por ter sido o primeiro blockbuster da perfumaria, ou seja, o primeiro que investiu enormemente em publicidade e alocação de espaços em quiosques de lojas de departamento para fazer um mega lançamento, comparável à indústria do cinema na época – hoje algo comum e corriqueiro.

newwest30. New West for Him & New West for Her (Aramis, 1988/1990). Oficialmente o primeiro perfume aquático da história, New West adotou a molécula calone sintetizada pela Pfizer décadas atrás na indústria farmacêutica. Além dela, a saída efervescente consiste de notas aromáticas de aldeídos, bergamota, menta, artemísia, lavanda e gerânio. Seguindo verde e energizante, New West for Him revela notas de jasmim, louro, agulhas de pinho, zimbro, alcarávia e coentro, apoiadas sobre uma base de couro e madeiras nobres. Ainda que tenha sido pioneiro, New West for Him tem um aspecto soapy bem datado, e hoje é praticamente desconhecido. Dois anos depois, Aramis lançou o par feminino com um tratamento mais frutado. A versão feminina do primeiro aquático do mundo recebeu um tratamento mais frutado. Abrindo com um acorde fresco e ozônico de bergamota, pêssego, melancia, ameixa e violeta, New West for Her seguia com um centro floral verde de gálbano, agulhas de pinho, menta, jacinto, cravo, rosa, jasmim e muguê. Para finalizar, a composição incorporava uma base de musgo de carvalho, cedro, âmbar, couro e musk. Ambos ajudaram a trazer a tendências das fragrâncias puritanas para os anos 90.

Veja também: Vintages

11 pensamentos sobre “Icônicos (Históricos)

  1. Pingback: Perfumes Icônicos, por Ego in Vitro |

  2. A lista é primorosa! Obrigado por nos fornecer tal leitura!
    P.S.: Gosto tanto do Terre d’Hermès… Achei que ele figuraria em alguma lista como essa… Enfim! Deve ser apenas um delírio de uma pessoa apaixonada… Talvez não mereça tanto assim!

      • Olá Daniel, curto muito seus artigos sobre perfumaria, gostaria se possível, que vc resennha-se o vetiver de Guerlain versão vintage, obrigado, forte abraço e sucesso!

  3. Gostaria de encontrar alguem que soubesse da existência ou tivesse usado a Colônia Vegetal Chamade de Guerlain.Não confundir com o perfume CHAMADE..O Líquido era verde e o frasco ovalada.Morro de vontade de sentir esse cheiro novamente.

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