Perfumes-Referência

Notas, acordes e famílias olfativas tiveram todos um marco inicial na perfumaria. O maior critério para o surgimento, evolução e firmamento de cada um deles esteve sobretudo associado à tecnologia de extração de óleos essenciais e síntese de novas matérias-primas em laboratório. Também, assim como no setor têxtil, uma nova nota, acorde ou família olfativa pode surgir simplesmente devido à ousadia de um estilista (ou perfumista, no caso), entrando assim para a moda.

Com o tempo, composições inéditas vão se provando viáveis sob o ponto de vista mercadológico e aí temos os chamados “perfumes-referência”. Um perfume-referência não é necessariamente o melhor do gênero, mas sim o que melhor exibe determinada nota, acorde ou família de forma isolada, de maneira que seja facilmente reconhecível e assim divulgado no boca a boca. O simples fato de uma fragrância estar na lista das mais vendidas do mundo não a torna necessariamente uma referência.

Eau Sauvage de Dior, por exemplo, foi o primeiro cítrico duradouro graças à síntese da molécula hedione, saindo do contexto das colônias tradicionais. Shalimar de Guerlain é incontestavelmente o pai dos orientais ao injetar uma overdose de vanilina numa combinação de cítricos, flores e bálsamos. N°5 de Chanel, com sua explosão de aldeídos, propôs um aspecto sintético de limpeza sofisticada que acabou transformando a perfumaria. M7 de Yves Saint Laurent foi a primeira fragrância comercial a focar no tema árabe de oud, que levou duas décadas para emplacar entre os consumidores não-árabes. Angel de Mugler apostou no uso de sintéticos até então exclusivos ao mundo de aromas gourmands (sobremesas) para a perfumaria fina. Analogamente, Cool Water de Davidoff fez a transição do funcional para o cosmético por meio do uso de dihidromircenol (usado em produtos de limpeza), criando assim o tal “novo frescor” em perfumes masculinos.

Mais de 60 exemplos podem ser conferidos na tabela ao lado (clique para expandir e dar um zoom).

Perfumes-referência, embora às vezes demorem vários anos para serem aceitos, acabam abrindo as portas para marcas concorrentes, fazendo com que nesse momento os consumidores lembrem daqueles que foram inicialmente ignorados. Por mais que sejam copiados ou até mesmo melhorados, eles têm em torno de si uma aura praticamente mágica, como se fossem protegidos por uma força invisível. Talvez porque os pioneiros tendam a ficar gravados na memória do público; talvez porque eles tenham investido mais em marketing devido à sua controvérsia. Ou simplesmente foram chocantes demais para serem esquecidos.

De toda forma, perfumes-referência são essenciais para quem deseja compreender a perfumaria como um todo, pois cada um deles traz um histórico cheio de significado. O objetivo não deve ser gostar ou não, mas sim desconstruí-los com o nariz e a mente, sem preconceitos, para entender e apreciar o seu valor histórico.

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