Minhas Reflexões

(cada texto é uma reflexão independente, da mais recente para a mais antiga)

Captura de tela 2016-05-19 17.01.16Participando do lançamento mundial de um novo perfume | A convite do grupo Puig, que detém a distribuição da marca Clarins (proprietária da marca Azzaro) nas Américas, viajei no último 15 de maio para a França com a missão de fazer a cobertura de um novo perfume para uma revista de moda masculina. Embora eu não esteja autorizado a revelar minhas impressões pessoais até seu lançamento oficial em agosto, achei oportuno compartilhar o processo nos bastidores. Quando um consumidor tem seu primeiro contato com uma fragrância, ele raramente faz ideia do trabalho envolvido, de como tudo foi milimetricamente pensado para conquistá-lo. Como fazer com que algo tão intangível e que só possa ser apreciado fisicamente gere interesse do público? Estamos falando de uma nova criação batizada com o instigante nome WANTED, anunciada como um novo pilar de Azzaro. Para a divulgação, foram reunidos em Mônaco cerca de 30 jornalistas e blogueiros de perfume e moda masculina do mundo todo. O evento de dois dias se iniciou com o dono do grupo Clarins falando sobre seu relacionamento com o icônico designer Loris Azzaro, falecido em 2003. Conhecido por seu hedonismo, extravagância e generosidade, o estilista nascido na Sicília teve seus atributos pessoais incorporados na nova fragrância e ilustrados de diversas formas nas 48 horas que se seguiram. O ápice do evento foi a introdução do novo perfume numa festa organizada na cobertura de um famoso hotel em Cannes, ao mesmo tempo em que o Festival de Cinema acontecia no lado de fora. O traslado, feito por helicópteros, enfatizou o espírito ousado de Azzaro e, obviamente, causou impressionou a imprensa. Depois de um breve discurso de executivos da Clarins, pudemos assistir em primeira mão ao comercial de WANTED estrelado pelo modelo norueguês Nikolai Danielsen, presente no evento, e enfim provar a fragrância. Depois de muitos anos lançando flankers de seus clássicos Azzaro pour Homme e Chrome, Clarins resolveu estabelecer um terceiro pilar para a marca, mantendo seu DNA olfativo. Para tanto, o diretor artístico Pierre Aulan idealizou uma composição que preservasse o frescor cítrico e a maciez amendoada (fava tonka do Brasil) porém desta vez focando na sensualidade de especiarias como gengibre, junípero e cardamomo, tendo em vista o público mais jovem. Enquanto o efeito picante foi harmonizado com o acréscimo da nota de vetiver, o grande diferencial ficou mesmo por conta do uso do óleo essencial de limão da Calábria, obtido com dois tipos de destilação – a partir da casca (o habitual, mais ácido) e da polpa (uma inovação, mais suculento). O perfumista Fabrice Pellegrin da Firmenich foi o encarregado da execução do conceito. O objetivo era chegar a um perfume woody spicy com a atmosfera do Mediterrâneo (onde Loris Azzaro passou grande parte de sua vida) mantendo um equilíbrio entre masculinidade e liberdade, podendo ser usado em qualquer ocasião para marcar presença. No dia seguinte, fomos conduzidos a um iate, onde tivemos a oportunidade de entrevistar os envolvidos no projeto. Esses explicaram o processo de desenvolvimento que levou cerca de três anos e 68 provas até se chegar na versão definitiva. Todos receberam um media kit e um frasco lacrado de WANTED, chamativo, no formato de um canhão de revólver. Concluía-se aí o evento de lançamento para a imprensa – um verdadeiro reference case para qualquer um que tenha a ambição de promover uma nova fragrância fazendo uso de um storytelling bem contado. Clarins deixou-me claro que o Brasil é para eles o mercado mais promissor. Considerando o tempo médio de desenvolvimento e a paixão dos brasileiros por flankers, já deixei encomendadas as versões “intense”, “cologne” e “parfum”.

ModernClassicsClássicos modernos | Os perfumes clássicos estão basicamente divididos em três categorias: os vintages com seu aspecto mais natural e greasy (pré-1970), os oitentistas e seus exageros (meados dos anos 70 e toda década de 80) e os modernos limpos e adocicados (pós-1990). Obviamente não se pode considerar algo novo como clássico, portanto vou desconsiderar os lançamentos feitos nos últimos dez anos. Mas o que realmente faz um clássico? As definições de dicionários são diversas, mas na perfumaria prevalece o sentido de uma criação olfativa que se provou relevante no decorrer dos anos, vencendo todos os modismos que a sucederam. Podemos dizer que clássico moderno é tipicamente aquele perfume que encontramos na pia do banheiro quando visitamos nossos amigos. É a verdadeira prova de algo que agradou muita gente ao longo do tempo, frequentemente se tornando uma assinatura pessoal, sem que o usuário enjoe ou pense em trocá-la. Seu aroma é distinto e reconhecível na rua, no escritório ou na balada, mesmo que o nome não venha à tona. Quando o mencionamos, muitos conseguirão visualizar mentalmente seu frasco. Certamente está na lista dos mais vendidos ao redor do mundo e tende a ser escolhido como presente a alguém querido justamente por ser mais conhecido e ter boa saída. Por outro lado, tende ao comum e ao batido, sendo imediatamente rejeitado por quem busca algo com originalidade, inovação e exclusividade. Acima de tudo, os clássicos modernos são os queridinhos de uma grande parcela da população e é muito fácil iniciar uma discussão calorosa quando se fala mal de algum deles. Na perfumaria masculina, podem ser citados como exemplos: Cool Water (1988), Joop Homme (1989), Eternity for Men (1990), Dolce & Gabbana pour Homme (1992), Platinum Egoïste (1993), CK One (1994), L’Eau d’Issey pour Homme (1994), Le Mâle (1995), A*Men (1996), Acqua di Gio (1996), Bvlgari pour Homme (1996), Pi (1998), Boss Bottled (1998), Déclaration (1998), Rochas Man (1999), 212 Men (1999), Fierce (2002), Gucci pour Homme (2003), Armani Code for Men (2004), Allure Homme Sport (2004), Dior Homme (2005), Terre d’Hermès (2006), Prada Amber pour Homme (2006), Versace Eau Fraîche (2006) e L’Homme (2006). No lado feminino, temos Dune (1991), Angel (1992), L’Eau d’Issey (1992), Classique (1993), Pleasures (1995), Poême (1995), Kenzo Jungle (1996), Lolita Lempicka (1997), Hypnotic Poison (1998), J’Adore (1999), Flower by Kenzo (2000), Coco Mademoiselle (2001), Light Blue (2001), Addict (2002), Burberry Brit (2003), Crystal Noir (2004), Cinéma (2004), Narciso Rodriguez for Her (2004), Alien (2005), Euphoria (2005), Hypnôse (2005), The One (2006), Armani Code (2006), Nina (2006) e Ange ou Démon (2006). Fica então a pergunta: quais serão os próximos clássicos modernos? Talvez 1 Million, Chloé, Bleu de Chanel, Elie Saab Le Parfum, The One for Men, Infusion d’Iris, La Nuit de l’Homme, La Vie Est Belle, Allure Édition Blanche, La Petite Robe Noire, Versace pour Homme…? Tudo indica que sim, mas só o tempo nos dirá.

Perfumes-ReferênciaPerfumes-referência | Notas, acordes e famílias olfativas tiveram todos um marco inicial na perfumaria. O critério para o surgimento, evolução e firmamento de cada um deles esteve sobretudo associado à tecnologia de extração de óleos essenciais e síntese de novas matérias-primas em laboratório. Secundariamente, assim como no setor têxtil, uma nova nota, acorde ou família olfativa também pode surgir simplesmente devido à ousadia de um estilista (ou perfumista, no caso), entrando assim para a moda. Com o tempo, composições inéditas vão se provando viáveis sob o ponto de vista mercadológico e aí temos os chamados “perfumes-referência”. Um perfume-referência não é necessariamente o melhor do gênero, mas sim o que melhor exibe determinada nota, acorde ou família de forma isolada, de maneira que seja facilmente reconhecível e assim divulgado no boca a boca. Do mesmo jeito, o fato de uma fragrância estar na lista das mais vendidas do mundo não a torna necessariamente uma referência. Eau Sauvage de Dior, por exemplo, foi o primeiro cítrico duradouro graças à síntese da molécula hedione, saindo do contexto das colônias tradicionais. Shalimar de Guerlain é incontestavelmente o pai dos orientais ao injetar uma overdose de vanilina numa combinação de cítricos, flores e bálsamos. N°5 de Chanel, com sua explosão de aldeídos, propôs um aspecto sintético de limpeza sofisticada que acabou transformando a perfumaria. M7 de Yves Saint Laurent foi a primeira fragrância comercial a focar no tema árabe de oud, que levou duas décadas para emplacar entre os consumidores ocidentais. Angel de Thierry Mugler apostou no uso de sintéticos até então exclusivos ao mundo de aromas gourmands (sobremesas) para a perfumaria fina. Analogamente, Cool Water de Davidoff fez a transição do funcional para o cosmético por meio do uso de dihidromircenol (usado em produtos de limpeza), criando assim o tal “novo frescor” em perfumes masculinos. Mais de 60 exemplos podem ser conferidos na tabela ao lado. Perfumes-referência, embora às vezes demorem anos para serem aceitos, são conhecidos por motivarem o lançamento de diversas inspirações feitas por marcas concorrentes. Por mais que sejam copiados ou até mesmo melhorados, eles têm em torno de si uma aura praticamente mágica, como se fossem protegidos por uma força invisível. Talvez porque os pioneiros tendam a ficar gravados na memória do público; talvez porque eles tenham investido mais em marketing devido à sua controvérsia. Ou simplesmente foram chocantes demais para serem esquecidos. De toda forma, perfumes-referência são essenciais para quem deseja compreender a perfumaria como um todo, pois cada um deles traz um histórico cheio de significado. O objetivo não deve ser gostar ou não, mas sim desconstruí-los com o nariz e a mente, sem preconceitos, para entender e apreciar o seu valor histórico.

PerfumistaAmador_ParteIIMinha experiência como perfumista amador – Parte II | Em outubro de 2015, eu comecei a investir nos óleos essenciais e químicos aromáticos mais comuns da perfumaria. Em janeiro, finalizei a minha primeira coleção – Les Égocentriques. A ideia era que o usuário comprasse o kit com 9 perfumes de 9 ml e usasse o décimo frasco vazio para montar a sua própria fragrância fazendo combinações (layering). O conceito, que inicialmente teve boa repercussão, acabou ficando restrito a um pequeno grupo de clientes da minha consultoria ou fiéis seguidores dos meus canais. Desde o princípio, imaginei que o conceito pudesse ser complexo e sem apelo comercial. Por outro lado, essa experiência foi um passo essencial. Além da questão das vendas limitadas, outro ponto importante foi o feedback recebido, de leigos e blogueiros a perfumistas profissionais. Em geral, Les Égocentriques foram bem recebidos e apreciados, principalmente no quesito originalidade. Alguns avaliadores, no entanto, consideraram os perfumes “nicho” demais ou com um apelo vintage, resistindo à proposta de layering. Se por um lado isso pareceu desencorajador, por outro me ajudou a seguir para uma segunda etapa. Atualmente, estou trabalhando numa coleção de perfumes inspirados em bebidas alcoólicas e não alcoólicas, nacionais e estrangeiras. Desta vez, investi em novos naturais e sintéticos que consegui obter por meio de fornecedores nos EUA, ampliando enormemente as possibilidades. Embora eu já utilizasse sintéticos mais básicos e tradicionais na coleção Les Égocentriques, agora conto com preciosidades desenvolvidas por casas de fragrâncias renomadas como Givaudan, IFF e Firmenich não disponíveis no Brasil. Com elas, novos acordes podem ser formados, com nuances e texturas inéditas, finalmente dando o tão sonhado acabamento de “perfume de free shop”. A vantagem é que, por ser um perfumista indie, eu posso explorar o melhor dos dois mundos, ou seja, aproveitar as maravilhas sintetizadas em laboratório para valorizar ingredientes naturais e ainda assim continuar produzindo fragrâncias inovadoras. A quantidade média de componentes usados em cada criação subiu de 12-15 para 20-25. Já nos primeiros testes com avaliadores leigos (representando o consumidor médio) e profissionais, o feedback tem sido diferente. Sinto como se eu tivesse evoluído na arte, aprendendo constantemente: às vezes deixar o perfume numa concentração mais baixa resulta melhor em termos de intensidade e desempenho; alguns ingredientes podem emudecer ou modificar negativamente outros na composição; seguir uma pirâmide olfativa coesa é fundamental mesmo no caso de um fresco (muitas notas de saída) ou oriental (muitas notas de base)… São coisas que a gente só aprende fazendo e errando muito. Não há atalhos; não dá para apressar. Felizmente a perfumaria é gratificante até nas inconsistências e equívocos.

concentraçãoO que concentração realmente significa? | Se estivéssemos vivendo 100 anos atrás, a concentração de uma fragrância teria mais a ver com o propósito da aplicação do que com a qualidade do perfume. Uma colônia (EDC) serviria para o bem-estar depois do banho (quando não simplesmente o substituía), enquanto um eau de parfum (EDP) estaria mais para um acessório de festa. O eau de toilette (EDT) veio bem depois, como uma solução intermediária. Os extratos, embora mais duradouros, não costumam exalar tanto quanto um EDC, EDT ou EDP devido ao seu menor teor de álcool, tornando-se mais rentes à pele e íntimos. Mais recentemente, contudo, o tema concentração virou uma ferramenta de marketing. Afinal, quem gosta de uma determinada fragrância está inclinado a comprar todas as suas variantes. É comumente aceito que um EDT seja mais leve, feito para o dia a dia, enquanto um EDP seja mais forte, feito para ocasiões especiais ou peles mais rebeldes. Mas as grifes passaram a chamar atenção para os concentrados, especialmente os parfums, com o argumento de serem melhores. Casas tradicionais e éticas como Guerlain, Dior e Chanel insistem na ideia clássica de que extratos devam conter os mais raros e preciosos ingredientes daquela formulação (chegando ao nível da melhor safra de um jasmim ou rosa), feitos para serem aplicados em quantidades mínimas. Tais extratos são oferecidos em pequenos frascos de 7,5 a 15 ml e vendidos entre 100 e 120 euros. Já no mercado masculino, o conceito é diferente – um bom exemplo é Terre d’Hermès Parfum, que custa cerca de 100 euros para um frasco de 75 ml. Isso é fácil de explicar, visto que se trata de um perfume mais fresco e carregado de materiais menos caros como óleos essenciais de laranja e vetiver, além de uma boa dose de sintéticos igualmente econômicos como hedione e Iso E Super. Por outro lado, o mercado de massa usa a concentração como vantagem competitiva ou justificativa para um preço diferenciado. Com a vasta disponibilidade de químicos aromáticos na perfumaria moderna, hoje é possível que um perfumista faça com que sua composição chegue a uma concentração de 30% se nela injetar uma boa dose de sintéticos que funcionem como “fermento”, afinal concentração é sempre uma proporção da essência em relação ao volume total. Isso explica como fabricantes de contratipos a exemplo da francesa Mane (marca UP!) possam declarar sem medo “contém 22% de essência” em seus frascos. A qualidade de uma fragrância tem, na verdade, pouco a ver com a proporção entre óleos essenciais, químicos aromáticos, solventes e álcool. O que realmente faz a diferença são os ingredientes utilizados (naturais e sintéticos) e, principalmente, COMO eles são utilizados. Existem perfumes na concentração de apenas 10% com melhor odor e performance do que muitos vendidos na forma de extrato ou parfum acima de 20%. Infelizmente, o consumidor típico não tem um nariz treinado e capaz de perceber a real qualidade de uma fragrância no instante em que ela interaja com a pele e passe a exalar seu aroma, independente da inscrição no rótulo.

FromPerfume-TheStoryofaMurderer-e1440622546241“Para o perfumista, não existe cheiro ruim” | Essa é uma frase que soa como clichê, sem qualquer imparcialidade, feita para glamourizar a profissão de um perfumista. A última vez que a ouvi foi na reunião dentro de uma grande casa de fragrâncias. Mas também dessa vez ouvi diferente – pela primeira vez, eu tinha uma melhor noção do que é ser perfumista. Ainda sendo amador e sem formação técnica, hoje entendo bem por que não existe cheiro ruim na hora de compor um perfume. O que seria um “cheiro ruim”? Por mais que tenhamos diferentes memórias olfativas, existe um certo consenso a respeito do que é um aroma desagradável, a exemplo de excreção animal, carne queimada, gás carbônico, ovo podre, lixo em decomposição… Tudo que remete a enxofre e pirazina nos causa repulsa. Isso é fácil de entender – o primeiro está relacionado a fluídos que são liberados do nosso corpo por serem desnecessários e indesejados; o segundo está relacionado à morte, como num acidente de carro que deixa vítimas carbonizadas. O chorume – aquele líquido fétido liberado por um material em decomposição, de lixo a cadáveres, é resultado da metabolização anaeróbica de bactérias (quando não há oxigênio disponível). Tais odores são nauseantes para qualquer ser humano, independente da cultura onde foi criado, em qualquer parte do mundo. Já as secreções exalam um aroma que pode nos agradar inconscientemente, mesmo que neguemos. O suor humano, embora rejeitado por muitos, pode ser atraente para alguns. Agora, quando falamos na composição de fragrâncias, a coisa é diferente. Na paleta do perfumista, nenhum cheiro é descartável, afinal até o pior deles pode produzir um efeito incrível. Os exemplos mais conhecidos são ingredientes animálicos como civet e castoreum – o primeiro mais ardido como queijo em putrefação; o segundo mais oleoso como couro cabeludo sujo. Em sua forma isolada, podem ser repugnantes, mas quando aplicados em doses mínimas a criações olfativas podem fazer toda a diferença entre a mediocridade e a obra-prima. O princípio do yin-yang explica tudo isso, mostrando que, para se dar brilho e vivacidade, é necessária uma contraposição com o escuro e o perverso. Por outro lado, não basta um composto ter odor exótico para ser usado em perfumes – ele precisa ter propriedades específicas que permitam uma excelente maceração e fixação (atributos que tanto o civet como o castoreum têm com excelência). Mesmo o jasmim não teria o seu aroma de aspecto carnal e inebriante sem a molécula indol, uma das mais fétidas da perfumaria em sua forma isolada. Lidar com cheiros repugnantes é essencial para a profissão de perfumista, o qual precisa constantemente evitar preconceitos e buscar ideias originais por meio de contrastes. É muito difícil chegar a uma fragrância verdadeiramente original quando se está limitado a ingredientes de odores agradáveis.

TurinLuca Turin – o maior crítico de perfume | Sempre tive uma relação de amor e ódio com Luca Turin, considerado a grande referência de avaliações olfativas. Por um lado, admiro o seu vasto conhecimento e dedicação ao assunto, desde a esfera molecular à mercadológica. Por outro lado, seu estilo sarcástico e, às vezes, aniquilador, ao meu ver torna-se contraprodutivo, embora admita ser repleto de um humor delicioso. Colocando tudo na balança, confesso que não admiro outro crítico mais do que este libanês de nascimento, criado por uma família ítalo-argentina e hoje praticamente um francês naturalizado. Em seu famoso guia Perfumes: The A-Z Guide, lançado pela primeira vez em 2008, Turin não só dá um banho de conhecimento em fragrâncias, como também se torna um guru para qualquer indivíduo que tenha vontade de conhecer profundamente o misterioso e etéreo mundo da perfumaria. Justamente aí é que reside uma de suas maiores contribuições – Turin adora quebrar tabus e mostrar que o aparentemente complexo é simples e o aparentemente simples é complexo. Suas resenhas são muitas vezes de difícil digestão por causa do seu “narcisismo” – o autor esbanja conhecimento em todos os possíveis âmbitos, como se fosse um cruzamento de químico, diretor de arte, historiador, perfumista e connoisseur. Em sua última entrevista ao blog Persolaise, Turin mais uma vez surpreende por suas afirmações radicais, sem papas na língua. O mago dos perfumes reitera sua visão de perfume não como um cheiro (por exemplo, um óleo de rosa) e sim como uma mensagem engarrafada e indecifrável (a apresentação do odor de rosa oferecida por um perfumista), quebra o mito de que o perfume tenha acesso privilegiado à memória (segundo ele, um mal-entendido devido ao caráter único de uma composição olfativa e a nossa falta de treino sensorial), e ainda defende os perfumistas autodidatas (os quais julga estarem em posição injusta por não terem acesso a sintéticos cativos de grandes casas de fragrâncias como Givaudan e IFF). Talvez essa tenha sido a minha maior surpresa, sabendo que estamos falando de um senhor que aparentemente coloca o conhecimento e a técnica em primeiro lugar, mas que no fundo prioriza o perfume verdadeiramente inovador, venha de onde vier. Turin afirma ainda que admira a maison Chanel por ser uma das poucas que não diluiu a qualidade de suas criações ao longo do tempo, enquanto considera a tradicional Guerlain embriagada por seu esnobismo. Segundo ele, dos 1400 lançamentos anuais na perfumaria, 95% são lixo (sic), vindos principalmente dos grandes designers. O crítico finaliza com a mensagem de que o papel de diretor artístico é tão importante quanto o do perfumista, pois ele funciona como um editor de filmes. Segundo Turin, esse papel é feito brilhantemente por Christopher Chong de Amouage, deixando a desejar por Frédéric Malle, hoje adquirido pela gigante Estée Lauder.

NichoXIndieLuxo e indie – as duas faces da perfumaria de nicho | Nicho é tudo que foge do mainstream, ou seja, é o que atende a grupos de consumidores que não se enquadram no marketing de massa. É um conceito amplo, muitas vezes definido de forma simplista. Há quem diga que nicho é tudo o que não é designer (estilista) ou celebridade, mas nem isso é verdade, pois uma grife como Guerlain não se enquadra em qualquer dessas opções. Na verdade, Guerlain tem dentro de si portfólio diferentes, que vão desde as criações vendidas em duty frees até o serviço bespoke (sob medida), passando pelas linhas exclusivas, que de fato atendem a um nicho. E o que dizer de designers exclusivos como Comme des Garçons, Helmut Lang e Costume National? Mesmo dentro do nicho existem muitas propostas diferentes, que incluem até mesmo a perfumaria religiosa, a vegana e a erótica. De toda forma, o grosso do nicho consiste basicamente de dois grandes mercados: luxo e indie. O primeiro é dedicado a perfumes feitos com matérias-primas mais preciosas, por perfumistas de renome e com apresentações bem elaboradas. O segundo é formado por perfumistas independentes que operam mais como artesãos, sendo responsáveis por todo o fluxo da confecção de uma fragrância, muito mais engajados na arte do que na monetização do produto. Se seguirmos a regra estabelecida pelo Oscar da perfumaria, o FiFi Awards, faríamos uma avaliação equivocada do indie, já que o prêmio reconhece as grandes marcas de luxo Kilian, Roja e Xerjoff como tal. Contudo, quem conhece bem a indústria, embora saiba que essas marcas operem fora do mercado de massa, não as classifica como indie. A linha que separa o luxo do craft muitas vezes é bastante tênue, mas há um critério do qual não se pode fugir: o acesso do comprador a quem cria a fragrância. Marcas de luxo têm uma estrutura mais compartimentalizada, onde o perfumista é coordenado por um diretor artístico, que traduz a demanda de mercado. Casas indie são enxutas e coesas, normalmente com um único encarregado que responde por tudo. O indie se diferencia fundamentalmente do luxo por estar em direto contato com o seu público. Ele compõe suas fragrâncias de forma interativa, e também lida com o feedback de forma mais rápida e espontânea. Nada disso acontece no nicho de luxo, onde a interação com o perfumista ou diretor artístico tem pouca ou nenhuma relevância. Em outras palavras: se você conseguir falar com o perfumista, certamente trata-se de um indie. Usuários que vão atrás de luxo buscam, acima de tudo, exclusividade, status e panache. Quem gosta da perfumaria indie está mais atrás de ousadia, criatividade e – com o perdão do trocadilho – essência. E qual é o melhor em qualidade? Impossível dizer – tem muita coisa boa e muita coisa ruim em ambos os lados da perfumaria de nicho. (fotos: Sarah McCartney / Kilian Hennessy)

contratipoSerá que ele é? O contratipo disfarçado de perfume | Se os esquimós conhecem mais de 50 termos para gelo, nós brasileiros conhecemos mais de 50 termos para malandragem. Para quem é de fora, o país é apenas visto como não sério, independente das justificativas que damos. E como temos justificativas! Somos tão bons na arte do engano (e autoengano) que nascemos com um sistema embutido que nos ajuda a navegar por todos os níveis de manipulação, desde uma simples mentira bem-intencionada até um imenso esquema de corrupção. Estamos acostumados a isso, afinal nascemos e crescemos hipnotizados com a ideia de que “se não formos pegos, tudo bem”. Aí vem a importante distinção entre princípio e regra. O princípio vem primeiro (ou deveria vir), nos mostrando o objetivo a ser alcançado (por exemplo, não se aproveitar de uma ideia concebida por outra pessoa); a lei vem depois para assegurar que o princípio seja respeitado (por exemplo, criar patentes para proteger um novo produto). Mas e quando se trata de perfumes? Algo tão etéreo e intangível não é passível de patente, portanto a indústria das imitações faz a festa. Mas quem são os contratipos? O brasileiro, que conhece 50 termos para malandragem, define contratipo como a cópia direta e evidente de um produto, feita com a ajuda de um equipamento chamado “cromatógrafo”, que detecta picos de odores, podendo identificar certa de 50-70% da fórmula. Estamos falando de algo como 1 Billion de Paris Elysées, onde se imita não apenas o nome como também a embalagem e o frasco. Há também as marcas que trabalham com numerações, bem ao estilo da antiga Contém 1g, hoje adotado por Up! e Hinode. Enquanto o primeiro caso vai nitidamente contra o princípio de não pegar carona no sucesso de outra marca, o segundo caso já é mais aceitável, pois claramente indica ao cliente que se trata de uma “inspiração” e não do perfume original. No entanto, existem os dois extremos da história: de um lado, a falsificação de perfumes (muito mais fácil de ser identificada) e, de outro, a cópia mais sofisticada que nada parece com um plágio. As grandes marcas nacionais são líderes nesta última há décadas – e o povo não acha ruim. Salvo raríssimas exceções, seus perfumes são imitações de grandes sucessos estrangeiros, quase sempre lançados dois anos depois (o tempo necessário para reconhecer um hit e criar uma cópia disfarçada com investimento pesado em propaganda). Ao contrário dos contratipos mais óbvios, os mais perigosos são justamente esses perfumes que saem com um marketing tão bem trabalhado que parecem ser completamente originais. Os vendedores dessas marcas não são instruídos a dizer ao consumidor que se trata de uma versão do Coco Mademoiselle – algo que na prática se faz o tempo todo para aumentar as vendas. E assim, no país dos 50 termos para malandragem, acabamos atirando as pedras em quem não sabe contar a melhor história em vez de boicotar quem realmente tira vantagem do sucesso alheio.

eneagramaO perfume e o Eneagrama da Personalidade | Apesar de ser pouco conhecido no Brasil, o Eneagrama é bastante utilizado nos Estados Unidos e em alguns países da Europa como ferramenta de autoconhecimento. Criado há milhares de anos pela escola súfi, depois estudado pelo filósofo armênio George Gurdjieff no início do século XXI e usado para entender a diferença entre as nove personalidades (arquétipos) pelo filósofo boliviano Oscar Ichazo, ele acabou nas mãos do psiquiatra chileno Claudio Naranjo que, nos anos 70, expandiu o modelo para ser utilizado na exploração dos potenciais de cada indivíduo. O Eneagrama é também bastante útil para nos fazer perceber a relação com o perfume. Começando pela moça se espreguiçando no topo da figura ao lado, temos o pacifista, que busca no perfume o bem-estar, tipicamente um aromático ou fougère que seja fresco ou adocicado, sobretudo macio, confortável e acolhedor. Continuando no sentido horário, temos as personalidades que enxergam o perfume como um tipo de amuleto emocional (fantasia ou conquista): o reformador com o seu perfume fresco, arejado e pungente (aromático cítrico, especiado e/ou amadeirado), o cuidador com o seu floral bonito e adocicado (chipre moderno, floral frutado e/ou frutado aromático), o performer com o seu floral bonito e limpo (floral fresco, branco e/ou musky) e o idealista com o seu floral bonito e macio (floral verde, polvoroso e/ou oriental). Na sequência, temos os indivíduos mais racionais, com uma visão mais pragmática do perfume (autopreservação ou sedução): o investigador com o seu fresco limpo e transparente (aquático aromático, floral e/ou amadeirado), o cético com o seu amadeirado seco e limpo (chipre clássico, couro e/ou especiado), o hedonista com o seu encorpado gostoso e adocicado (oriental amadeirado, floral e/ou vanilla) e o mandão com o seu encorpado opulento e pungente (oriental especiado, floral bomba e/ou qualquer outro que seja ousado). As linhas do Eneagrama que ligam cada personalidade a outras duas mostram os pontos de apoio, que podem ser traduzidas como os perfumes que nos relaxam e nos energizam. Por exemplo: o perfume assinatura de um cuidador pode ser um frutado, mas ele às vezes pode usar um floral à base de íris para relaxar ou um “gourmanzão” para se divertir na balada. Na nossa relação com os outros, acabamos nos atraindo pelo “vizinho” de Eneagrama. Ou seja, o mandão pode preferir para si um perfume opulento e intimidador, mas em outra pessoa ele talvez ache mais atraente sentir um perfume mais macio ou lúdico, acima de tudo despretensioso. Estudos já comprovaram que os seres humanos são atraídos pelo cheiro mais contrastante com o de si próprio, podendo assim se reproduzirem para gerar crias mais evolutivamente adaptadas.

ConceituaisPerfumes conceituais | Fazendo um paralelo com a moda, a perfumaria é marcada pela constante evolução, por meio da introdução de novos conceitos. Como na “haute couture”, o primeiro a mostrar uma inovação pode tanto ser alvo de ridículo, como pode entrar para a história. Seu maior critério não é necessariamente ser o melhor do gênero ou até mesmo sobreviver e virar um clássico, mas sim ter consigo trazido um novo conceito. Na perfumaria, o perfume-conceito abre novos caminhos, mostra novas possibilidades. Geralmente ele é marcante e até mesmo exagerado, no intuito de causar uma real ruptura. Alguns são posteriormente retrabalhados em si mesmos ou por meio de imitações, fazendo com que o conceito se consolide. Entre 1880 e 1980, podemos citar estas 25 criações: Fougère Royale (Houbigant, 1882, fougère alavandado), Jicky (Guerlain, 1889, fougère vanilla), L’Heure Bleue (Guerlain, 1912, oriental polvoroso), Quelques Fleurs (Houbigant, 1913, floral buquê), Chypre (Coty, 1917, chipre clássico), Mitsouko (Guerlain, 1919, chipre frutado), Habanita (Molinard, 1921, chipre couro-tabaco), N°5 (Chanel, 1921, floral aldeídico), Shalimar (Guerlain, 1925, oriental vanilla), Tabu (Dana, 1932, oriental floral e animálico), Pour Un Homme (Caron, 1934, lavanda vanilla), Vent Vert (Balmain, 1947, floral verde), Miss Dior (Dior, 1947, chipre floral), L’Air du Temps (Nina Ricci, 1948, floral picante), Youth Dew (Estée Lauder, 1952, oriental balsâmico), Pour Monsieur (Chanel, 1957, chipre verde), Diorissimo (Dior, 1956, floral fresco), Vétiver (Carven, 1957, chipre amadeirado), Habit Rouge (Guerlain, 1965, oriental masculino), Aramis (Estée Lauder, 1966, chipre couro), Eau Sauvage (Dior, 1966, cítrico potente), N°19 (Chanel, 1971, floral verde e polvoroso), Opium (YSL, 1977, oriental picante), Polo (Ralph Lauren, 1978, chipre canforado) e Azzaro pour Homme (Azzaro, 1978, fougère anisado). Todos eles foram determinantes para o desenrolar da perfumaria e ainda influenciam as criações atuais. Mais recentemente, podemos considerar os seguintes 25 perfumes como conceituais: Kouros (YSL, 1981, fougère canforado e animálico), Paris (YSL, 1983, floral com rosa damascona), Poison (Dior, 1985, floral indólico e balsâmico), Calyx (Clinique, 1987, frutado tropical), New West (Aramis, 1988, aromático aquático), Fahrenheit (Dior, 1988, couro floral e ozônico), Boucheron (Boucheron, 1989, oriental cítrico), Samsara (Guerlain, 1989, oriental indólico e amadeirado), Cool Water (Davidoff, 1988, fougère aquático e mentolado), Trésor (Lancôme, 1990, oriental floral e polvoroso), Feminité du Bois (Shiseido, 1992, floral amadeirado), L’Eau d’Issey (Issey Miyake, 1992, floral aquático), Angel (Thierry Mugler, 1992, gourmand patchouli), CK One (Calvin Klein, 1994, cítrico floral e musky), Le Mâle (Jean-Paul Gaultier, 1995, lavanda vanilla picante), Black (Bvlgari, 1998, couro vanilla), Rush (Gucci, 1999, chipre frutado moderno), J’Adore (Dior, 1999, floral frutado), Flower (Kenzo, 2000, floral oriental e polvoroso), Coco Mademoiselle (Chanel, 2001, chipre floral moderno), Narciso Rodriguez for Her (Narciso Rodriguez, 2003, floral musky), Dior Homme (Dior, 2005, amadeirado alavandado e polvoroso), Lovely (Sarah Jessica Parker, 2005, floral alavandado e salino), Terre (Hermès, 2006, amadeirado picante e alaranjado) e 1 Million (Paco Rabanne, 2008, couro picante e gourmand).

NaturalSintéticoA confusão do natural versus sintético  | A perfumaria é complexa – justamente aí é que reside seu charme. Dentre tantos desentendimentos, está o do natural versus sintético. A maior parte das pessoas usa a analogia da nutrição: quanto mais natural, menos danoso à sua saúde e melhor o aroma (imagine um simples suco de laranja espremido na hora e outro de caixinha). Na perfumaria é o contrário. Os ingredientes utilizados contêm, in natura, alérgenos que podem causar dermatites e até câncer. Pensando nisso (e também na economia de dinheiro, tempo e energia na extração) e incentivados pelos ativistas ambientais, cientistas passaram a sintetizar as matérias-primas no final do século XIX. Nascia aí a perfumaria moderna, dando um salto quântico em direção a um universo de infinitas possibilidades. O movimento hippie / new age iniciado na Califórnia nos anos 60/70 trouxe à tona diversos temas importantes, entre eles os direitos dos animais e o meio ambiente. As intenções eram idôneas e legítimas, mas a falta de conhecimento criou mitos poderosos. Acreditava-se que o raro e caríssimo âmbar gris poderia ser obtido caçando baleias cachalotes – uma inverdade, já que o âmbar gris tem seu odor característico somente depois muito tempo flutuando sobre o mar e curado pelo sol, água e ar. De fato, o cobiçado musk do veado almiscareiro só pode ser obtido através da caça e abate – prática hoje banida. Outro mal-entendido é de que os sintéticos usados em perfumes são danosos à saúde. Na verdade, houve um período em que alguns químicos aromáticos cancerígenos eram utilizados, entretanto eles foram retirados da paleta de ingredientes do perfumista há décadas. Hoje tudo é estritamente controlado pela IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias). Outro mito é de que os fabricantes usam sintéticos apenas para reduzir custos. Isso pode ser verdade em muitos casos, mas sintéticos nem sempre são uma opção barata – os que chegam muito próximo de matérias-primas raras e de difícil extração têm custo altíssimo. As maiores vantagens no uso de sintéticos são, na verdade, a segurança (fabricados seguindo padrões estritos) e a estabilidade (não variam entre lotes como os ingredientes naturais). No processo de síntese, componentes perigosos são desconsiderados e, quando essenciais, substituídos por moléculas sintéticas. Imagine um perfume aquático que busque reproduzir a sensação de estar de férias na praia. Logo vem à cabeça um aroma marinho e tropical, ao mesmo tempo refrescante e cremoso (protetor solar). Por meio de sintéticos, um perfumista pode compor uma fórmula que chegue muito próximo ao aroma natural de praia, porém este inclui também componentes indesejados como algas, moluscos e excreções, entre outras coisas em estado de putrefação. Para simular o efeito natural, a paleta do perfumista conta com algumas moléculas feitas especialmente para dar um toque “sujinho” à fragrância. Finalmente, há o mito de que perfumes 100% naturais sejam melhores, tanto em desempenho quanto em aroma. Enquanto uma fragrância mais sintética é trabalhada para fazer uma transição suave entre o mundo orgânico e artificial, a fragrância que usa muitos componentes naturais costuma ter aspecto medicinal e narcótico. Ela tem seu público, mas está longe de ser uma tendência. Voltando à metáfora inicial, pense na pessoa que está acostumada a tomar suco de caixinha e que resolva tomar um suco de laranja natural, pensando ser a melhor opção. Isso realmente pode lhe fazer um estrago no estômago. Por outro lado, não nego que uma gota de matéria-prima natural possa transformar a mediocridade em obra-prima.

n_5-parfum-flacon-75ml.3145891209501Chanel N°5 e o poder do mito | O termo “mito” em si é neutro – não é positivo nem neutro. Mito é aquilo que sintetiza uma relação entre pessoas, objetos e eventos cujo significado tenha um poder maior do que a soma de suas partes e que a necessidade de buscar evidências de sua veracidade. O maior mito da perfumaria é, sem dúvida, o Chanel N°5. Só o fato de ser um perfume lançado em 1921 e que se mantém como o mais vendido por quase um século é em si um sólido indício disso. Mas o que está por trás do Chanel N°5? Muitos símbolos e mistérios, o que torna o mito ainda mais forte e indissolúvel. Jamais se provará se sua fórmula foi um erro de pesagem (aldeído C11, o odor de tinturaria, multiplicado por dez) ou se foi simplesmente visão, talento e ousadia do próprio perfumista Ernest Beaux. Jamais se provará se o Chanel N°5 foi o primeiro perfume do tipo ou se foi apenas uma inspiração do Rallet N°1, composto pelo mesmo perfumista alguns anos antes para a família imperial russa. Jamais se provará se o número 5 foi escolhido por ser o número de sorte de Coco Chanel ou simplesmente porque a amostra de número 5 foi a que mais lhe agradou. Jamais será provado se o design do frasco foi inspirado no formato da Place Vendôme ou se tão somente seguiu uma estética Bauhaus. Porém, podemos estar certo de uma coisa: o Chanel N°5 foi originalmente oferecido na versão extrait de parfum, muito diferente do que encontramos nas perfumarias. Enquanto a versão EDT ou EDP chamam atenção pelo enorme efeito sintético de tinturaria, valorizando um buquê de flores e com um leve toque animálico de civet, com aspecto datado, o extrato é o VERDADEIRO e clássico atemporal Chanel N°5 – ele contém um diferencial importantíssimo, que é o uso de manteiga de íris (orris), o ingrediente mais caro da perfumaria. O contraste entre os aldeídos, orris e absolutos naturais (jasmim, rosa, ylang-ylang) é o que propicia o encanto do perfume. As versões EDT e EDP vendem muito e são idolatradas claramente pela força do mito, mas estão longe da qualidade do original. Longe daquele perfume que Madame Chanel começou presenteando seus clientes importantes para somente depois comercializá-lo. O Chanel N°5 ainda é vendido nas boutiques e loja virtual da grife: 116 euros (500 reais) por 7,5 ml, 186 euros (800 reais) por 15 ml ou 287 euros (1200 reais) por 30 ml. Mais recentemente, a grife lançou o excelente Chanel N°5 Eau Première – uma versão revisitada por Jacques Polge com um estilo floral fresco, feito para mulheres modernas, bastante compartilhável. Entre a versão Eau Première e o Parfum, o EDT e EDP infelizmente acabam ganhando mais atenção, possivelmente pela facilidade de acesso e poder de compra do usuário. A fórmula do Chanel N°5 já foi identificada e replicada diversas vezes, inclusive virando o cheiro favorito para os sabonetes de hoje e a nossa ideia olfativa de limpeza fina. Não há mistério algum nisso – não é o líquido em si que faz do Chanel N°5 o perfume mais icônico, vendido e aclamado do mundo, mas sim a sua força mitológica.

ComoVocêVêComo você “vê” um perfume? | O perfume é como qualquer artigo à venda no mercado, podendo ser enxergado de diversas formas. Para simplificar, basicamente, um produto pode ser visto como um fim em si (uma utilidade), um meio (uma ferramenta) ou um símbolo (um fetiche). Pense num carro. Você pode adquiri-lo usando como critério o quão eficiente ele seja desempenhando uma tarefa específica, como levar os filhos à escola com o menor consumo possível de combustível. Você pode escolher um modelo pensando na engenharia do carro ou em como você se sente o operando – ou seja, enxergando-o como uma ferramenta entre você e o objetivo final. Finalmente, você pode comprar um carro como objeto de poder e status para aumentar a autoestima ou fomentar a admiração dos outros por você. Claramente o produto sendo visto como um meio é mais bem aproveitado, no sentido de que suas características intrínsecas são mais apreciadas e compreendidas – “o que importa é a viagem em si e não o destino”. O mesmo vale para o perfume. Há quem o compre como uma utilidade (para disfarçar cheiro de suor ou cigarro), como uma ferramenta (para ter bem-estar ou se conhecer melhor), ou como um fetiche (para se sentir valorizado por si mesmo e pelos outros). O primeiro grupo de consumidores está mais ligado ao “gosto” ou “não gosto”, mais pragmáticos, dando pouco atenção ao marketing e mais ao resultado e objetivo alcançado. O segundo está mais ligado ao “tem a ver comigo”, com consumidores mais sofisticados, assimilando a experiência olfativa como um todo. O terceiro está mais ligado ao “preciso comprar”, “preciso ter” ou “preciso mostrar”, aspirando incorporar em si a imagem que a grife, o frasco, a embalagem e o anúncio transmitem. A perfumaria é marcadamente dividida nessas três formas de enxergar o produto. Às vezes elas não são tão claras e se confundem – pode ser que eu enxergue o meu L’Air du Désert Marocain (o melhor perfume do mundo, na minha opinião) apenas como uma ferramenta, mas ele acaba representando uma grande fantasia para mim, sem que eu me dê conta disso. Ele também pode ter a utilidade de seduzir alguém na balada. Não há nada de errado em ver o perfume como utilitário ou fetiche, contanto que o usuário tenha consciência disso. Consciência é algo difícil quando o assunto em pauta é tão etéreo como a perfumaria, deixando muito espaço para as manipulações dos gurus da publicidade. Quanto menos se domina um assunto, mais propensos estamos à autossugestão. Mas a questão chave é: o perfume contribui para você da forma que melhor pode ser aproveitada no seu contexto pessoal? Se sim, vá em frente. O perfume está a seu serviço e não o contrário.

wordsFaltam adjetivos para descrever perfumes | Dentre todos os nossos sentidos, certamente o menos usado é o olfato. Há um motivo para isso: hoje, em 2015, nós não precisamos dele tanto quanto nossos ancestrais, que dele dependiam para sobreviver. Usamos o nosso nariz mais ativamente em situações de emergência ou incômodo, como quando a comida está queimando ou alguém com cheiro forte de suór senta ao lado. O gás de rua tem um potente odor artificial e característico justamente para nos alertar de um possível vazamento. Inseticidas precisam ter um cheiro ruim para que saibamos dosar a quantidade (já houve casos de fabricantes que amenizaram o odor, elevando o número de vítimas de intoxicação). E, como o nosso vocabulário é formado pela necessidade cotidiana, há uma carência explícita de adjetivos para descrever cheiros além de “fragrante” (neutro), “cheiroso” (positivo) ou “fedido” (negativo). Nós só conseguimos descrever odores emprestando termos de outros sentidos – a sinestesia. Por exemplo, tente descrever uma ostra. Adjetivos como gosmenta, salgada e gelada vêm à cabeça, mas como descrever o cheiro que lhe é tão peculiar? Uma famosa citação de Ernest Hemingway exemplifica: “Enquanto eu comia ostras com seu aroma do mar ligeiramente metálico enxaguado pelo vinho, deixando apenas a textura suculenta, eu perdia o sentimento de vazio.” Assim, perfumes também podem ser descritos usando adjetivos como moderno, clássico, datado, fresco, denso, limpo, funcional, adstringente, rançoso, abafado, narcótico, intoxicante, efervescente, doce, salgado, gourmand, quente, translúcido, leve, macio, aveludado, sedoso, pesado, escuro, brilhante, marinho, ozônico, ácido, verde, amargo, vegetal, azedo, sujo, podre, herbáceo, agreste, crispy, musgoso, terroso, florestal, atalcado, frutado, polvoroso, soapy, cremoso, lactônico, butírico, medicinal, picante, licoroso, boozy, canforado, terpênico, amadeirado, resinoso, balsâmico, esfumaçado, metálico, plástico, mineral, animálico e musky, sem contar o uso de infinitas metáforas que podem ser usadas livremente contanto que o interlocutor consiga “visualizar” o cheiro que você está descrevendo. A grande desvantagem da escassez de adjetivos específicos para o olfato (e isso vale para todas as línguas, inclusive o francês) é o abuso de marketing. Grifes adoram contar uma historinha para nos fazer comprar um perfume, e acabamos acreditando em tudo por pura ingenuidade. 1 a 0 para eles. Já que não conseguimos dar nomes aos cheiros, nada mais conveniente do que associar fantasias a cada um deles, criando as mais diversas aspirações emocionais. E como elas são sedutoras…

Investigator checking test tubes. Man wears protective gogglesMinha experiência (até agora) como perfumista amador | Achei oportuno registrar este momento, visto que logo estarei em outra, envolvido com as finalizações das nove fragrâncias que estou criando. Até seis meses atrás eu nem sonhava em compor perfumes. Primeiro porque não tenho formação em química (conheço pouco sobre ingredientes naturais e sintéticos); segundo porque não tenho um laboratório com equipamentos apropriados; terceiro porque já existem muitas obras-primas a serem apreciadas. Entretanto, graças à internet, hoje temos acesso a kits para iniciantes por um preço razoável, além de informação sobre o que entre nas fórmulas. Se por um lado parte da magia da perfumaria se dissipa, por outro tudo fica mais real. Livros e cursos ajudam bastante, mas nada como acertar e errar na prática. Descobrir o que está por trás de fantasias complexas como íris, âmbar, couro… Como às vezes é necessário combinar dez ingredientes para chegar a uma única nota (ou acorde), e depois juntar uma dúzia delas para compor um perfume com topo, centro e fundo. Interessante perceber como cada material se comporta sozinho e na companhia de outros – ora se valorizam mutuamente em simbiose, ora se emudecem como duas pessoas gritando ao mesmo tempo. Entender como as misturas exalam seu odor de forma distinta no frasco, na fita olfativa e na pele. E sem esquecer a parte exaustiva de fazer variações de dosagens (um pouco menos de uma nota, um pouco mais de outra), documentar fórmulas (colar etiquetas, indexar as amostras, anotar impressões), “queimar” as mãos e as narinas, pagar as faturas dos fornecedores e – o mais difícil – esperar uns dez dias até que os óleos essenciais e químicos aromáticos interajam e se estabilizem (maceração). A ansiedade não deixa parar, o que acaba gerando moving targets – alguns avaliadores olfativos gostaram muito da segunda amostra, mas já estou na sexta. O que fazer? Decisões, decisões… São tantas matérias-primas, tantas combinações possíveis, tantas evoluções. Finalmente entendo o porquê de um perfume levar dois ou três anos para ser desenvolvido. Poder criar livremente no conforto da minha casa é um verdadeiro luxo, afinal não preciso trabalhar com tolerâncias microscópicas, seguir briefings, projetar vendas, correr atrás de assinaturas… Imagino a luta de um perfumista profissional que trabalha dentro de uma casa de fragrâncias e a frustração de não poder ser um artista. Por isso mesmo tais empresas acabam recorrendo a químicos em vez de perfumistas no sentido clássico da palavra… Até o momento, ser perfumista amador tem sido uma das mais ricas formas de terapia, com alto retorno sobre o investimento, mesmo sem vender um único frasco.

Polo-CologneO poder das cores | Está claro que não há press release que substituta um frasco e uma embalagem. Agora, você já pensou sobre como as cores são escolhidas? Se não conscientemente, certamente com a sua intuição. Mesmo com a diversidade de culturas, o ser humano tende a partilhar do significado das cores. Nos 100 primeiros anos da perfumaria moderna (1889-1989), a cor predominante era o amarelo em todas as suas nuances. O AMARELO denota aspecto natural e a maior parte dos óleos essenciais têm essa tonalidade – além de oportunamente remeter à riqueza por alusão ao ouro. Se dois dos três presentes que o menino Jesus recebeu no seu nascimento foram perfumes, o terceiro foi o metal precioso… No máximo um cítrico seria BEGE e um oriental MARROM; um VERDE poderia às vezes aparecer, mas ainda assim invocando plantas ou musgos. Os anos 90 trouxeram consigo uma grande necessidade de tecnologia e abstração na vida cotidiana, e a perfumaria cumpriu com o seu papel ao introduzir novos sintéticos e com eles novas possibilidades (algo como o pós-modernismo). O AZUL – que representa o frescor (ou frieza) e virilidade – foi eleita a cor dos aquáticos e aromáticos. O ROSA – que representa a beleza e delicadeza – virou tema dos florais e chipres. Já o ROXO e o PINK remetem ao lúdico e à meninice e são típicos de perfumes doces (tipicamente frutados ou gourmands). O PRETO, o MARROM, o PRATA e o DOURADO estão associados à sofisticação e à seriedade – âmbar, couro e madeiras nobres são a bola da vez. Mais raramente aparecem o VERMELHO e o LARANJA, que podem simbolizar a pungência das especiarias ou a acidez das frutas cítricas. Finalmente, o BRANCO ou TRANSPARENTE denotam sensação de limpeza e maciez, típicas de fragrâncias mais funcionais. Lembra dos perfumes amarelos? A nova geração os encara como perfume de vovó. Se na década de 90 a moda era aplicar químicos colorizantes para alterar a cor do líquido, tal técnica se provou instável e perigosa. Anos depois, usuários começaram a reclamar de partículas que precipitaram em seus frascos, a exemplo do clássico moderno Gucci Envy, feito na cor verde para melhor ilustrar a ideia da inveja. Hoje o costume é limitar a coloração artificial apenas para os frascos, pois aí as possibilidades são praticamente infinitas e o líquido transparente ou amarelo permanece puro e cristalino, sem corantes e, portanto, com menos chance de precipitação. Se as cores têm o seu significado próprio, o de sedimentos flutuando no perfume é basicamente um só – parece coisa mal-feita.

EstilosO confortável, o bonito, o chic, o sexy e o gostoso | Todo bom perfume se encaixa em um ou mais destes adjetivos. Normalmente, uma pessoa prioriza dois ou três deles e a escolha depende da sua personalidade com suas motivações mais profundas, cristalizadas durante a infância e sofisticadas durante a vida adulta. Alguns dividem sua coleção em dia e noite, deixando os mais leves e secos para o trabalho e os mais potentes e adocicados para a balada. Tem gente que prefere uma fragrância arejada, vibrante ou relaxante, que lhe traga bem-estar – para eles existem os cítrico-aromáticos e os florais frescos como CK One, Acqua di Gio ou L’Eau d”Issey. Outros usam perfume para chamar atenção, podendo assim ser percebido assim que entra no recinto e atrair olhares (às vezes só por provocação) – lhes caem bem os fougères intensos como Kouros ou florais-bomba como Joop Femme. Há quem prefira ser discreto sem abrir mão da elegância, buscando passar a impressão de seriedade e refinamento – para homens, uma boa pedida são os amadeirados como Encre Noire e, para as mulheres, os chipres tradicionais como 24 Faubourg. Boa parcela dos usuários curte perfumes mais doces e encorpados, dividindo-se em sedutores (conquista, motivação externa) e hedonistas (prazer, motivação interna) – esses se dão melhor com os orientais como Classique ou Spicebomb. Embora o verdadeiro aficionado queira gostar de todo tipo de perfume, explorando as cinco qualidades em destaque, é impossível gostar de tudo. Há sempre um estilo que causa repugnância, onde o máximo que se pode fazer é admirar a beleza do perfume, mesmo sem poder usá-lo. Já o público médio geralmente opta por um estilo só – por exemplo, confortável (Light Blue), bonito (Anaïs Anaïs), chic (Vetiver de Guerlain), sexy (1 Million) ou gostoso (Angel). Alguns perfumes são mais versáteis e se enquadram em mais de um adjetivo: confortável-chic (Terre d’Hermès e Baiser Volé), confortável-bonito (Eau Sauvage e Infusion d’Iris), confortável-sexy (Bleu de Chanel e La Panthère), confortável-gostoso (212 Men e Armani Code), bonito-chic (Dior Homme e Chloé), bonito-sexy (Fahrenheit e Coco Mademoiselle), sexy-chic (La Nuit de l’Homme e Alien), sexy-gostoso (Le Mâle e Lolita Lempicka), entre tantas infinitas combinações. Independente de qualquer coisa, o mais importante é evitar preconceitos e descobrir as diversas facetas da perfumaria antes de se decidir por um único estilo. Há muita gente por aí perdida, usando um perfume legal, porém não o melhor para ela porque não conhece outras possibilidades ou porque foi hipnotizada pelo marketing. Não espere o perfume te escolher – você é que tem que ir até ele.

MathildeModelo de perfumista | Em 125 anos de perfumaria moderna, muita coisa mudou. Nos tempos de Jean Carles, François Coty e Jacques Guerlain, eles eram os mestres que davam as ordens. Hoje, a  casa de fragrâncias prefere, na verdade, contratar alguém formado em Química ou Engenharia Química, que esteja mais para um soldado do que para um artista. Nada mais inconveniente para eles do que ter que lidar no dia a dia com uma pessoa cheia de ideias e que não se contenha na hora de compor uma fragrância. Atualmente, o perfumista médio apenas executa um briefing e, caso seu nome seja reconhecido pelo usuário, é porque a grife investiu num marketing pesado. O caso mais evidente é o de Jean-Claude Ellena da Hermès, um senhor de olhar melancólico e enigmático que inspira jornalistas a escreverem artigos interessantes sobre ele. Tudo feito de forma calculada e pouco autêntica. Mas o caso que realmente impressiona é o da perfumista Mathilde Laurent da Cartier. Ao contrário de Ellena, ela é a “garota comum” que você encontra tomando café no Starbucks. Assertiva e pragmática, Mathilde proporciona em sua entrevista ao site Basenotes um sopro de esperança ao connoisseur. A história da perfumista é curiosa, pois durante os anos em que trabalhou na Guerlain criou diversas composições que nunca lhe foram creditadas. Atualmente, com uma década de Cartier, Mathilde atingiu o posto que todo perfumista almeja: o de poder criar e falar abertamente sobre suas composições. Um de seus lemas é a simplicidade (“na perfumaria, menos é mais”) – a perfumista defende que usar dezenas de ingredientes é fácil, pois a multiplicidade tende à harmonia, embora traga resultados medíocres. Assim, Mathilde acredita que perfumes maravilhosos e originais devam conter não mais do que poucos e seletos ingredientes, entre 10 e 15, como o seu sofisticado e envolvente La Panthère. Seu foco também não está em criar algo totalmente novo, e sim em trabalhar na engenharia das matérias-primas e suas interações, como fez com o lírio-do-vale no seu simples e eficiente Baiser Volé. E quanto às restrições da IFRA (Associação Internacional de Fragrâncias)? “É apenas um discurso de marketing. Uma desculpa. Os perfumistas sempre reclamam que não podem fazer perfumes bons e criativos porque muitos ingredientes foram banidos. Eles os retiram da fórmula assim que a IFRA diz que vai analisar. Na Cartier, nós esperamos. Se no final o ingrediente não for banido, ele continua nas nossas fórmulas.” A perfumista critica também o storytelling da pirâmide olfativa (“uma mentira boba e manjada”) – ninguém mais usa absoluto de rosa e óleo essencial de sândalo, simplesmente porque são caros, instáveis e desnecessários. É claro que, ao se colocar dessa forma, Mathilde acaba se tornando não menos caricaturada que Ellena, porém ao menos ela nos leva mais próximo da verdade.

downloadA histeria estéril da perfumaria | Recebi a mensagem de uma leitora e colega da área que me tocou. Assim como eu, ela está cansada da histeria onipresente na perfumaria. Nos consumidores que querem comprar de qualquer jeito o perfume da marca/celebridade X que acabou de ser lançado e que só se satisfazem quando são elogiados. Nas blogueiras que chegam a ovular quando falam do frasco irresistível e do cheiro maravilhoso de mulher rica, sem nada comunicar sobre o aroma em si. Nos vendedores de lojas de shopping ou aeroporto que desenvolveram habilidades paranormais para saber o que você curte e quem você vai “pegar” com o perfume Y. Nas vendedoras de lojas de luxo maquiadas e bem-vestidas que ganham três salários mínimos mas que acham que o perfume cheira melhor quando elas lançam o seu olhar blasé. Nos distribuidores que dedicam seus estoques aos perfumes mais fáceis de vender, sempre com o objetivo de bater as metas de vendas para depois dobrá-las (sentem pequenos orgasmos com isso). Nas marcas que descrevem seus perfumes (storytelling) como se tivessem sido feitos para habitantes de um mundo paralelo onde expressões como “absoluto de rosas colhidas por freiras virgens”, “óleo essencial de sândalo indiano em extinção” ou “almíscar de unicórnio primogênito do Himalaia” são normais. Por duas décadas, a perfumaria de nicho, de certa forma, supriu a necessidade daqueles que realmente se importam com a arte, que dominam o seu olfato, que têm a habilidade de ignorar os ruídos da histeria estéril da perfumaria de massa. No entanto, as grandes marcas da tal perfumaria de nicho já foram ou estão em processo de serem compradas por grupos de marcas comerciais. A esperança fica com a perfumaria indie (de “independente”, a nova perfumaria de nicho) – essa sim vê a beleza na simplicidade, na percepção, na engenharia dos ingredientes, no autoconhecimento. Alguns perguntam: “mas por que você simplesmente não ignora isso e faz o seu trabalho?”. Primeiro, porque isso é fácil apenas na teoria (tente dormir no avião com alguém batendo papo com um passageiro três fileiras à frente). Segundo, porque o meu amor e compromisso com o perfume não aceita viver nessa insanidade. Acredito que eu não esteja sozinho nessa encruzilhada, pois, quanto mais o marketing se impõe, mais o outro extremo se sente na necessidade de reagir. Há muita gente que leva a sério o perfume sob o ponto de vista artístico, mais voltado para a essência, de blogueiros e críticos a perfumistas e diretores de criação. Felizmente não existe a história da hegemonia total de uma coisa sobre a outra – quem está realmente disposto a ir atrás da verdade sempre encontrará um caminho.

TendênciasO que esperar dos próximos anos? | Se eu estivesse escrevendo este texto por volta de 2005, deveria ter previsto o seguinte: os perfumes de agora seriam menos criativos, mais seguros e muito prolíficos (flankers eau/intense/temáticos, edições limitadas, múltiplas concentrações, extensões de linha); os masculinos mais vendidos seriam aromáticos musky ou amadeirados boozy, ricos em sintéticos (ambroxan, Iso E Super, cashmeran, Safraleine, etil maltol); e os femininos se dividiriam entre os florais musky, os chipres modernos (rosa/frutas/patchouli) e os gourmands ultradoces, igualmente sintéticos. Finalmente, em 2015, vimos indícios mais claros de uma outra fase, com novas tendências. Os designers estão priorizando as fragrâncias femininas, agora mais inovadoras, já que o público masculino está, cada vez mais, entrando no mercado de nicho, pesquisando e comprando via internet em sites especializados. O estereótipo de que o homem é mais objetivo e pragmático se prova verdadeiro. Na perfumaria feminina, o aspecto salino vem sendo crescentemente abordado desde Lovely (Sarah Jessica Parker) de 2005, como em Narciso (Narciso Rodriguez), Mon Exclusif (Guerlain) e Reveal (CK), bem como o aquoso em Dolce (D&G), Gucci Bamboo e Miu Miu, ou ambos ao mesmo tempo, como em Mod Noir (Marc Jacobs), Aqva Divina (Bvlgari) e Olympéa (Paco Rabanne). Isso mostra um interesse maior das mulheres pela delicadeza e textura da fragrância. No lado masculino, nota-se uma maior receptividade ao floral, aberta por Dior Homme em 2005, como em Eau de Nuit (Armani), Tom Ford Noir, Équipage Géranium (Hermès), Valentino Uomo e Icon (Dunhill). Aliás, perfumes à base de rosa são a nova tendência unissex (depois dos cítricos tradicionais e dos gourmands a partir dos anos 90). Em geral, as versões devem continuar, especialmente linhas exclusivas, flankers oud e EDPs masculinos. Fragrâncias de celebridades vêm ganhando qualidade e originalidade como em Truth or Dare Naked (Madonna), Eau de Gaga (Lady Gaga) e Girl (Pharrell Williams). O mercado de nicho, não mais tão claramente definido, deve explorar dois extremos: o natural/rural/herbáceo/orgânico e o abstrato/urbano/defumado/plástico. O destaque dos próximos anos, contudo, deve ser a consolidação do mercado indie – pequenas casas comandadas por artesãos que interagem diretamente com o público via redes sociais – que bombou a partir de 2010. Já a perfumaria nacional, infelizmente, não dá sinais de sair do piloto automático.

11012696_448658425297762_1990047995707313086_nO luxo, o lixo e a luxúria | Assim como muitos termos da nossa linguagem, a palavra “luxo” mudou de sentido ao longo do tempo. Do latim “lux”, luxo significa aquilo que ilumina, que reluz. O significado contemporâneo da palavra passou a ser, no entanto, ostentação, enquanto, na verdade, luxo é descobrir um espaço só seu. A massificação da perfumaria incentivou casas de fragrâncias a apelarem para os limites do preço: o designer inglês Clive Christian lançou em 2001 um perfume de 50 ml a 865 dólares, depois imitado por outros. Voltando ao significado original de luxo, será o mais luxuoso comprar um perfume apenas porque ele beira quatro dígitos? Ou seria descobrir o perfume que mais combine com a sua personalidade em todas as suas nuances? Uma pessoa que entende o real significado de luxo sabe que, mais do que pagar caro porque é exclusivo, luxo é entender e satisfazer as necessidades particulares dela, adquirindo um produto diferenciado. É claro que no final isso pode custar caro, mas a motivação inicial não é a ostentação. Um olfato apurado em si é um luxo – toma-se muito tempo e dedicação para saber usá-lo, e não está à venda. O aumento exponencial de lançamentos ano após ano torna cada vez mais difícil a separação do que é luxo, lixo ou luxúria. Fazendo uma retrospectiva da história mais recente, podemos dizer que o grande divisor de águas foi o surgimento das lojas de departamentos, que nos anos 70 transformaram perfumes em blockbusters, agrupando-os na mesma seção. Assim, grifes passaram a competir cara a cara e foram forçadas a reduzir seus preços, aumento seus volumes em contrapartida. A massificação inspirou a criação de casas independentes como L’Artisan, Annick Goutal, Creed, Acqua di Parma e Penhaligon’s, todas propondo a volta da TRADIÇÃO e REQUINTE das composições do passado. Entre 1990 e 2010 novos nichos se estabeleceram com diferentes focos: ABSTRAÇÃO e COMPLEXIDADE (Serge Lutens, Nicolaï, Frédéric Malle, Tauer e Histoires de Parfum); MINIMALISMO e ORIGINALIDADE (Comme des Garçons, Le Labo, État Libre d’Orange, Juliette Has a Gun e Bond No. 9); LUXO e OPULÊNCIA (Roja Dove, Clive Christian, By Kilian, Xerjoff e Puredistance); e GRIFE e EXCLUSIVIDADE (Guerlain Art et Matière, Chanel Les Exclusifs, Armani Privé, Hermessence e Tom Ford Private Blend). A partir de 2010, com a explosão das redes sociais, o nicho indie surgiu simbolizando OUSADIA e POSSIBILIDADE. Tornou-se muito mais fácil criar, divulgar e distribuir um novo perfume. Assim, as milhares de fragrâncias lançadas a cada ano nos colocam entre o lixo e a luxúria – se por um lado sabemos que 99% não têm a qualidade esperada, por outro acabamos recorrendo ao apelo visual e ao storytelling das grifes para chegarmos mais perto do 1% que realmente faz diferença. O olfato apurado se tornou o maior luxo de todos, além, é claro, da habilidade de se fazer buscas no Google e encontrar o melhor custo e logística para chegarmos próximo ao perfume.

11097_385599691603636_1901330779558773523_nA diferença entre bom e bom para mim | O olfato é como qualquer outro sentido: é uma forma de conexão entre nós e o ambiente e que traz diversas associações conscientes e inconscientes. Essas associações são processadas pelo seu sistema límbico que decide o que é agradável ou desagradável. Por mais que gosto seja pessoal, alguns odores são universais. O aroma de baunilha remete ao leite materno e transmite acolhimento e conforto; o aroma fecal remete à podridão e sujeira. Flores e frutas são mais associadas à feminilidade, pois são os aromas que transmitem beleza e sensualidade (atração de insetos para polinização). Madeiras e notas aromáticas (lavanda, gerânio, menta, etc) são mais associadas à masculinidade pois são os aromas que transmitem solidez e frescor. Notas quentes (especiarias e resinas) e gourmands são unissex por conta do apelo universal ao paladar. O gosto também está sujeito à moda e a regras da indústria. Por exemplo, devido à restrição do uso de musgo de carvalho e indol (molécula que dá o odor fecal às flores brancas), fragrâncias com estas notas em evidência estão em desuso e hoje passam por datadas (“perfume da vovó”). Notas animálicas praticamente desapareceram depois da onda puritanista dos anos 90, mas podem voltar. Independente dos clichês olfativos, você possui um gosto único e que precisa ser explorado para obter o maior proveito possível da perfumaria. A grosso modo: quem curte bombas (loud) deve priorizar notas como flores brancas, frutas suculentas, âmbar, baunilha, mel, tabaco, couro, incenso, especiarias e madeiras encorpadas (oud, patchouli, sândalo). Quem prefere discrição e frescor (quiet) deve priorizar notas como frutas cítricas, flor de laranjeira, íris, violeta, rosa, gerânio, lavanda, ervas finas, madeiras leves (vetiver, cedro, bambu) e musk. Cada uma dessas duas categorias simplistas é ramificada em diversos estilos, compostos de variadas notas e acordes. Moral da história: não deixe que alguém diga a você o que é bom.

10690112_389256801237925_1352436800170758827_nQual o perfume mais sedutor? | Aquele que faria com que todos se curvassem à sua frente como no best-seller “O Perfume” de Patrick Süskind? Obviamente tal fórmula é um mito e o Santo Graal da perfumaria existe apenas para deixar o assunto ainda mais interessante. O início da noção de que poderia haver um perfume que conquistasse a todos veio da associação com os feromônios que existem no mundo animal com a finalidade de atrair (sexualmente), agregar ou alertar. O fato é que nunca foi comprovado o mesmo efeito em seres humanos e, portanto, qualquer fabricante ou marca que se proponha a tanto está praticando falsidade ideológica. O outro ponto é que, não existindo tal elemento universal de atração humana, o aroma de uma fragrância recai sobre os diversos gostos pessoais. Talvez possamos agrupar os gostos em uma dezena de categorias genéricas, mas não menos do que isso. E quanto mais apurado seja o olfato de uma pessoa, mais exigente ela será (um tiquinho de gengibre ali, e pronto, já estragou). Por outro lado, alguns estudos mostram que o componente do jasmim que produz o seu característico odor brilhante e fresco (ou seja, descontando o odor narcótico, plástico e orgânico da flor) está próximo da unanimidade. Homens e mulheres são atraídos pelo aroma que foi sintetizado e batizado com o nome de “hedione”, usado pela primeira vez em Eau Sauvage. De toda forma, não dá para usar hedione em tudo. A perfumaria perderia a graça. No final das contas, o perfume que mais conquista é aquele que gera autoconfiança e, consequentemente, atração. E para isso o perfume deve estar muito bem alinhado com o estilo e a personalidade de quem o usa.

sephora_shelves_2Por que há 10 anos não é lançado um perfume masculino original e inovador? | A resposta automática é: “porque homem não gosta tanto de perfume, perfume é coisa de mulher, etc.” Resposta errada. Homens são grandes consumidores de perfumes, só que compram de forma diferente. Voltando aos lançamentos, em geral este mercado é mesmo averso a riscos, mas no universo da perfumaria feminina grandes novidades foram apresentadas: Kenzo Amour, Elie Saab Le Parfum, Kelly Calèche, Lovely, Womanity, Insolence, Sì, Jour d’Hermès, Sahara Noir, Perles de Lalique… Já no lado masculino, as últimas inovações se deram em 2006: Terre d’Hermès e Encre Noire (e talvez Narciso Rodriguez for Him). Os grandes lançamentos da última década foram todos inspirações: Bleu de Chanel, Midnight in Paris, Spicebomb, 1 Million, L’Homme, The One, Versace pour Homme, Roadster, Gucci II, Infusion d’Homme… Perfumes inovadores como Egoïste, Fahrenheit, Cool Water, Antaeus, Joop Homme, Kouros, Bel Ami, Tsar, Jules e Third Man são memórias nostálgicas dos anos 80. Outros como Le Mâle, A*Men, Pi, Dreamer, Rochas Man, Envy, Bvlgari pour Homme, Déclaration, Insensé e Minotaure ficarem perdidos nos anos 90. Depois o número de lançamentos interessantes diminuiu a um por ano: M7 (2002), Gucci pour Homme (2003), L’Instant pour Homme (2004) e Dior Homme (2005). Mais exigentes e objetivos que as mulheres, os homens estão paulatinamente passando a ignorar o marketing e a explorar o líquido, dirigindo-se ao mercado de nicho. No outro extremo, os designers estão arriscando cada vez menos nas opções masculinas, lançando ano após ano perfumes medianos ou flankers.

le-parfum-est-mortStorytelling, autoengano e desprezo à arte  | Aprofundando um dos temas abordados pelo meu vídeo recente, sinto a necessidade e urgência de falar sobre aquilo que se tornou a minha missão na Terra: o combate ao storytelling fajuto. O storytelling é um tema que abrange tudo na vida, desde pequenos incidentes do dia a dia a profundos traumas de infância. Mas vou me ater à perfumaria. Em 2014, resolvi me inscrever num curso de especialização na área, no intuito pretensioso (porém idôneo) de me tornar um expert no assunto. O entusiasmo inicial foi se dissipando à medida em que o curso virou um grande tutorial de storytelling. Resumindo: professores bastante competentes e bem-intencionados dedicavam-se a ensinar a arte da manipulação psicossemântica, vulgarmente conhecida por propaganda. Como descrever um perfume para seduzir o consumidor? Como conceber o frasco mais atraente? Como posicioná-lo no mercado para vender mais? A simpatia das pessoas ao meu redor ajudou a suportar um ano de acordes em desacordo: um topo volátil de arte, um coração marcante de storytelling e um rastro tímido de consciência. Ao perceber o perigo de estar caindo na armadilha do autoengano, decidi trancar a matrícula. Ser autodidata e conversar com connoisseurs se provou mais eficaz. A maldição do storytelling fajuto está por toda a parte: nas escolas, nos fabricantes, nas lojas, nas cabeças dos consumidores. Quando se fala em arte, já dizem “lá vem você com seu papo zen!” E eu me pergunto, como foi que chegamos a este ponto? Se preferem palavra melhor, então vou trocar “arte” por “essência”, aproveitando o trocadilho. Eu não quero “viajar” (ênfase nas aspas) quando estou experimentando um perfume – eu quero VIAJAR (sem as aspas). E também não vejo arte como algo etéreo – para mim ela deve ser realística e tangível. Quero entrar em contato comigo, me situar no presente, ter paz, me conhecer melhor, ser mais agradável aos outros. O perfume pode fazer tudo isso. Já o storytelling fajuto faz exatamente o contrário.

perfume-illustration-fine-art-print-or-canvas-323-pPerfume é arte? | O Manifesto das Sete Artes (1912) proposto por G.W.F. Hegel e Ricciotto Canudo enumerou as artes de um a sete, nesta ordem: música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura e cinema. Depois vieram movimentos tentando agregar estéticas mais modernas como fotografia, quadrinhos, vídeo games e arte digital. Enquanto isso, o tradicionalíssimo perfume era oficialmente ignorado como forma artística. Talvez por sua característica parcialmente utilitária, talvez por sua dificuldade de ser comunicado e transportado. O cinema era considerado a mais completa delas por reunir todos os elementos das anteriores: som, movimento, cor, volume, representação e palavra. A perfumaria, por dedução, cairia bem como oitava arte, já que engloba o cinema e seus elementos: o perfume é lançado via briefing, press release e storytelling (palavra), a proposta é feita em forma de fantasia para o consumidor (representação), que é atraído pelo frasco e embalagem (cor e volume) e pelo comercial (som e movimento). A oitava arte, então, emprestaria personalidades em evidência da sétima arte (celebridades) para endosso e credibilidade. E o que o perfume agrega? Tecnicamente o aroma; efetivamente a presentificação e encarnação da memória como nenhuma das demais artes. Assim como um músico combina notas e acordes em harmonia e um pintor utiliza sua paleta de cores para criar uma paisagem, o perfumista compõe uma fragrância usando diversas matérias-primas. O resultado pode ser belo, pontiagudo, macio, moderno, escuro ou árido – não há restrições para adjetivos. E por atuar tão fortemente no sistema límbico – que processa nossas decisões baseado em memórias – o perfume pode produzir emoções tão fortes como nenhuma outra forma de arte.

la tireuse de cartesO efeito cartomante do perfume | Como opera uma cartomante ou outro tipo de vidente? Ela une sua sensibilidade aguçada à aleatoriedade das cartas de baralho, manchas de café, entre outros. Praticamente tudo no universo segue um padrão, e com cada padrão surge um bias (predisposição a algo). O bias é o maior inimigo dos nossos sentidos, pois tende a oferecer um “atalho”, empobrecendo a experiência sensorial. Quando a cartomante está diante de você, ela detecta sinais que podem indicar uma alta probabilidade da ocorrência de eventos. Acreditar ou não em videntes é irrelevante para o conceito em questão. O “feeling” dela, aliado à sequência de cartas – cada qual com um significado atribuído – tiradas por você, aleatoriamente, produz uma captação mais “pura” e “isenta” de interferências, seja ela falsa ou verdadeira. O que isso tem a ver com perfume? O perfume funciona como um baralho de cheiros: por ser o nosso sentido menos explorado, o olfato minimiza o bias que você tem, criando uma experiência cognitiva mais profunda. Infelizmente, o perfume é normalmente visto como uma ferramenta estética, funcional ou muitas vezes neurótica (idealizações intangíveis, compras por impulso, insatisfação crônica…), enquanto ele – ou qualquer outro produto fragrante – pode ser uma das ferramentas mais poderosas de autoconhecimento se trabalhada da maneira correta. Se você passar a vê-lo dessa forma, um perfume nunca poderá ser um presente errado e desagradável – há sempre algo a aprender. Evidentemente, quanto menos você souber sobre ele, melhor. Descrições e listas de notas, ou até mesmo anúncios com slogans e storytelling, só atrapalham. Seria como se consultar com uma cartomante apenas para confirmar tudo o que você gostaria que fosse verdade.

NoseOs 7 estágios da perfumania | 1-DESCOBERTA: Você ainda é pequeno e vai bisbilhotar no banheiro dos pais. Os produtos de beleza da mamãe são muito mais interessantes e elaborados, principalmente os pequenos frascos com spray. Com o instinto que a natureza lhe deu, você escolhe um e pressiona a válvula. Leva um susto – não é amor à primeira vista. Depois de cinco minutos, você se rende. 2-EXPLORAÇÃO: Com o novo prazer descoberto, você sai em busca de outros banheiros ou entra sorrateiramente em perfumarias. Afinal é um prazer restrito aos adultos. Chega um momento em que é aceitável pedir um perfume como presente de aniversário. 3-PADRÕES: A divisão entre masculino (seco e/ou herbáceo) e feminino (doce e/ou floral) aos poucos vai incomodando, então você se vê obrigado a tomar a decisão de seguir os padrões ou o seu instinto. 4-MATCH: Finalmente, você encontra o perfume ideal, que tem tudo aquilo que você gosta e faz uma química perfeita com a sua pele. Você o usa em todos os lugares e ocasiões, e sua autoestima se eleva, atraindo elogios. 5-DECEPÇÃO: Passada a lua de mel, com uma acomodação olfativa, você sente falta do prazer de explorar novos perfumes e se encantar com eles. É hora de voltar à busca, desta vez de forma mais consciente. 6-EXPLORAÇÃO CONSCIENTE: Você decide ignorar todos os rótulos e regras, com nada entre o líquido e o seu nariz. Grifes, frascos, preços e anúncios não fazem mais parte do jogo. Percebe, então, que seu nariz se torna mais elástico quando toda forma de autossugestão é suprimida. 7-ILUMINAÇÃO: Chegou o momento do insight. Aquilo que muitos anos atrás fora motivado pelo instinto era, na verdade, uma força interior em busca de autoconhecimento – o olfato primitivo e renegado querendo emergir. Através da exploração do quinto sentido, você descobriu o que ele pode fazer por você: ser completo e viver no presente.

CinemaCinema e perfumaria  | Como admirador de filmes e perfumes desde pequeno, é natural que eu faça paralelos entre um e outro. A questão que mais chama atenção é a dicotomia arte-lucro – salvo raras exceções, é muito difícil se concentrar em um sem abrir mão do outro (elaborado demais pode ser de difícil compreensão; agradável demais pode cair na mediocridade). “Gravidade” e Black Orchid de Tom Ford são exemplos recentes que vêm à mente. Assim com os perfumes, os filmes podem ser mainstream (Oscar) ou indie (Sundance). Depois há a questão de gêneros – os filmes de drama (ou no caso os orientais na perfumaria) são levados mais a sério e mostram mais complexidade; os de comédia (ou os aromáticos) trazem bem-estar e nos relaxam, mas a sensação dura pouco e dificilmente permanece na memória por muito tempo; os românticos (ou os florais) são “coisa de mulher”; e os documentários (as fragrâncias naturais e realísticas) são uma ameaça à fantasia e ao escapismo. Na questão de avaliação, quais critérios devem ser levados em consideração? Há críticos de cinema que são mais políticos, promovendo suas visões pessoais, e há outros que analisam a obra friamente, levando a sério até mesmo a escolha do título. O que dizer sobre as sequências (ou flankers)? O filme foi sucesso de bilheteria, então fazem-se versões dele até que o público se canse – “Missão Impossível” e A*Men de Thierry Mugler parecem ter ainda muita história para contar. E não podemos esquecer a questão do reconhecimento. Quem merece crédito: os atores (ingredientes de excelente qualidade com papéis bem desempenhados), o diretor (o perfumista que soube harmonizar e maximizar os potenciais individuais) ou o estúdio (a grife que investiu dinheiro na ideia e arriscou seu nome)? Os paralelos são infinitos, porém uma coisa é certa: na perfumaria nunca teremos acesso ao director’s cut.

FlankersFlanker ou versão tradicional? Eis a questão  | Como regra geral, o flanker é inferior ao tradicional. Imagine que um perfume leve de um (nos Estados Unidos) a três anos (na França) a ser criado. Da ideia original ao lançamento, são inúmeras etapas de provas e ajustes, envolvendo muito tempo, dinheiro e energia. O flanker é um atalho: toma-se como base o original para dar uma cara nova e aproveitar um nome que já é aceito e, portanto, automaticamente com alto potencial de venda. Um perfume bem-sucedido comercialmente é como uma marca dentro de uma marca. Poison, Coco e Infusion são marcas registradas de suas respectivas grifes, e nada impede que sejam replicadas em fragrâncias que nada tenham a ver com a versão tradicional. Hoje em dia, lançar um perfume com nome inédito é praticamente como abrir uma nova empresa. O que Hypnotic Poison, Coco Mademoiselle e Infusion de Vétiver têm a ver com o original? Quase nada, o que acaba sendo um ponto positivo. Compor um perfume é como construir uma casa: primeiro faz-se a fundação, depois as paredes e, por último, o telhado. Fazer um flanker é mexer em uma parte da estrutura sem prejudicar a harmonia e desempenho (projeção e longevidade) da obra, e isso é muito difícil. Às vezes é mais plausível começar do zero. Há casos como N°19 Poudré, Dior Homme Intense e Shalimar Parfum Initial que foram totalmente reconstruídos por perfumistas que não estiveram envolvidos na versão tradicional. Não há limites para a criatividade dos flankers. Quem se lembra de XS de Paco Rabanne (aquele transparente e inofensivo)? O XS original primeiro ganhou o flanker Black XS (chocolate), depois Black XS l’Excès (abacaxi), Black XS l’Aphrodisiaque (mel) e, finalmente, Black XS Potion (rum). Analisando a lista de lançamentos dos últimos dez anos, percebe-se que quatro em cinco fragrâncias são flankers. É o mundo dos negócios sambando na cara da arte.

2273607274“Adorei seu perfume. Qual é o sexo dele?” | Esses dias me deparei com a matéria de uma blogueira de perfumes. O texto me chamou atenção, pois a garota fazia seu manifesto contra perfumes unissex ou compartilháveis. Segunda ela, essa nova tendência acabaria com os perfumes claramente femininos ou masculinos. Seria um adeus às bombas florais e aos fougères, afinal, para serem compartilháveis, os perfumes precisariam agradar a homens e mulheres, como os aromáticos ou os gourmands. Temo que a blogueira tenha captado a ideia de forma equivocada. A tendência não é de perfumes que agradem os dois sexos, mas sim de perfumes sem o rótulo pour homme / pour femme ou for men / for women como antes da massificação da perfumaria. Ou seja, abaixo a pretensão de ditar a quem se destina o perfume! É só observar o que acontece no mercado de nicho: os perfumes são concebidos conforme a inspiração do perfumista, deixando para o usuário a decisão da escolha. No mercado de nicho, os perfumes são ainda mais heterogêneos, variando de aromático florestal com tons animálicos a floral oriental gourmand. A vantagem de não classificar perfumes por gênero é ampliar as possibilidades para o usuário. Por exemplo, dificilmente um homem provará um Baiser Volé de Cartier, localizado na prateleira feminina. O fato é que Baiser Volé cai muito bem para homens com seu aroma cítrico e floral fresco à base de lírio-do-vale. Já as mulheres costumam provar perfumes masculinos com mais frequência, mas não vejo muitas usando Dior Homme, um dos mais belos amadeirados à base de íris, lavanda, couro e patchouli. Quando o assunto é perfume, somos mais que um gênero – somos uma personalidade única. Este é um assunto que, enquanto não entendermos de vez do que realmente se trata, virá sempre à tona, muitas vezes com resistência. Relaxemos – a vitória é nossa.

fragrance-pyramidO que faz um perfume interessante? | Independente da performance na pele ou da sua memória olfativa particular, existem alguns fatores que separam perfumes incríveis daqueles medianos, inofensivos e que agradam a maioria. O perfume deve ser visto como algo artístico, portanto qualquer percepção literal ou figurativa diminui o seu valor. Não é legal sair com um cheiro orgânico de rosa ou de sândalo, assim como não é legal sair com um odor sintético de metal ou plástico. Já uma rosa metálica ou um sândalo plástico podem ser interessantes. Um perfume bem feito é construído com notas de diferentes volatilidades para evitar que fique com aspecto abafado como um xampu ou amaciante. Moléculas de pesos diferentes vão formando uma composição como na música, com início, meio e fim, criando harmonia. Assim como na moda, os contrastes são fundamentais. O princípio taoísta do yin-yang explica: no estado puro, nada existe; a contraposição valoriza a força de dois polos. Desta forma, não surpreende que o acorde clássico fougère seja tão popular: enquanto a lavanda traz um frescor leve e gelado, a cumarina dá substância e calor. Ou no caso do acorde clássico chipre: a combinação de bergamota e rosa (ou outra flor) refresca e ilumina a composição, ao passo que a combinação de labdanum e madeiras amargas propicia consistência e sofisticação. Criações mais ousadas são sempre mais interessantes – uma nota de trigo num acorde polvoroso ou uma nota de abacaxi num acorde oriental podem surtir resultados surpreendentes. Mas para isso é preciso ter coragem e não se basear em focus groups. Revisitar ingredientes do passado também é uma boa pedida. E, finalmente, um perfume interessante precisa ter “ranhuras” – uma composição muito limpa, ou muito redonda, não convence. Na perfumaria, não existe Photoshop.

focus group say versus doFocus group – o inimigo no. 1 dos amantes de perfume | Ganhando das descontinuações ou reformulações causadas por novas normas (que restringem cada vez mais ingredientes) e do difícil acesso a perfumes de nicho (sujeitos a incríveis manobras logísticas e fiscais), não há nada pior que um focus group. Inventado pelos americanos no auge do marketing dos anos 70, grandes empresas passaram a fazer “testes de laboratório” com seres humanos. Pesquisadores ofereciam aos entrevistados diversas alternativas não-identificadas de um mesmo produto, seguidas de um formulário de avaliação. A dinâmica do exercício era complexa para maximizar objetividade e imparcialidade na hora da avaliação. Enquanto um focus group pode ser útil para artigos utilitários como produtos de limpeza, esse método agrega pouco valor para produtos sujeitos a criatividade e inovação, pois os entrevistados não são capazes de avaliar com competência algo inédito e que cause ruptura. Um perfume pode não ser um artigo hi-tech, mas tampouco é um bem de necessidade básica. Não conseguindo resistir à comodidade do focus group (pois ele sintetiza o interessse de um cluster de clientes potenciais e minimiza riscos de rejeições), designers há décadas vêm se rendendo a criações que agradem à média da população, ou seja, medíocres. Raríssimas exceções como Guerlain, Caron, Mugler, Hermès e Cartier rejeitam a metodologia e confiam no talento de seus perfumistas. São essas as grifes que lançam composições inovadoras e criadoras de tendências. Há uma maior tolerância para falhas (flops), que são simplesmente retiradas de mercado. Se todos aderissem aos focus groups, dificilmente teríamos obras-primas como Habit Rouge, Tabac Blond, Angel, Un Jardin sur le Nil e La Treizième Heure. Já o mercado de nicho deita e rola com suas criações libertárias e ousadas para deleite dos amantes de perfume.

confusion-guyNão entendo  | Não entendo pensar que perfume é algo supérfluo. Não entendo a fascinação dos brasileiros por flankers. Não entendo a veneração de perfumes descontinuados. Não entendo elogiar o estilista em vez do perfumista. Não entendo a data de validade arbitrária dos perfumes. Não entendo gostar mais do frasco do que do líquido. Não entendo cheirar grãos de café para limpar o olfato. Não entendo achar que perfume tem fixador e âmbar gris. Não entendo buscar um perfume que agrade todo mundo. Não entendo surtar quando seu perfume favorito é criticado. Não entendo pagar uma fortuna num sapato e não num perfume. Não entendo um perfume com cinco anos ser considerado vintage. Não entendo como uma lista de notas possa descrever um perfume. Não entendo a classificação e benefício fiscal das deo-colônias. Não entendo como esfregar os pulsos possa quebrar moléculas. Não entendo usar perfume somente para si e ainda assim pedir a opinião dos outros. Não entendo ser aficcionado sem estudar a perfumaria. Não entendo exaltar perfumes 100% naturais sem conhecer. Não entendo acharem que perfume sintético faz mal à saúde. Não entendo guardar amostras sem nunca prová-las. Não entendo acreditar mais na mídia do que no próprio nariz. Não entendo ter mil perfumes sem saber o que é vetiver. Não entendo pensar que perfume de nicho é caro e melhor. Não entendo como as restrições de ingredientes possam ter salvado vidas humanas.

MarilynPerfume: evolução ou alienação? | “Algumas gotas de Chanel N°5”, respondeu Marilyn Monroe ao ser questionada com o que ela dormia. O que mais chama atenção na resposta de Marilyn não é a marca do perfume, mas sim o fato de que ela usava perfume para dormir. “Qual é a utilidade disso?”, pensam muitos. O fato é que, dentre as muitas funções de um perfume, está o bem-estar. Ao longo da nossa jornada olfativa, vamos nos dando conta da química com certos odores e repulsa a outros. Tudo tem um motivo por trás – memórias são resgatadas desde o período de gestação. Porém, o usuário precisa tomar consciência do processo. Infelizmente, a maioria das pessoas bebe da fonte da mídia – o desejo fabricado pela fantasia para gerar consumo. Todo produto tem uma utilidade, mas ela sozinha não é suficiente para vender num mercado ultracompetitivo. O truque é criar uma aura em torno do perfume que diga com sedução “as pessoas vão gostar mais de você se me possuir”. Seja Beyoncé ou Chanel, a utilidade do produto, nesse caso, nasceu morta. O perfume passa, então, a ser um instrumento de alienação. Se antes o potencial era colocar o usuário em contato consigo, agora o movimento é contrário – o usuário está focado naquilo que ele não é mas poderia ser. O problema da alienação criada pelo marketing é que ela subliminarmente reforça um sentimento insaciável de carência e frustração. O prazer é momentâneo e dura até que a próxima fantasia seja criada. Por mais que uma coleção gigante de perfumes não seja necessariamente um sintoma de alienação, um usuário mais consciente dá prioridade à experiência e prefere movimentar seus perfumes para provar coisa nova. No final das contas, algumas gotas do perfume ideal é tudo que precisamos.

lonelinessA maldição dos connoisseurs | Chega um ponto na vida do connoisseur que ele se depara com uma maldição: a solidão. Vinte anos atrás (por volta de 1995), ele se contentava com um Calvin Klein e achava Dior o suprassumo. Aos poucos, a determinação de explorar a perfumaria vai abrindo novos caminhos e o olfato se torna cada vez mais elástico, como um músculo que dói no primeiro dia da musculação. Uma fragrância à base de vetiver passa impressão de água suja. O cheiro plástico de mel e pólen da acácia é de embrulhar o estômago. “Que nota esquisita (folha de violeta) dá esse aspecto ozônico e amargo em Fahrenheit?” Assim como não nascemos gostando de tudo que comemos, o espectro do nosso olfato vai se ampliando à medida em que insistimos no estranho, bizarro e incomum. Quando fica claro que podemos apreciar o que costumávamos rejeitar, sentimos uma sensação de crescimento, superação e liberdade. Naturalmente, em certo momento, o gosto fica tão sofisticado que passa a exigir o excêntrico – pelo menos sob o ponto de vista do leigo. Nota-se um desconforto ao redor. Os mais sinceros dizem que alguém está usando um perfume que cheira a bode suado. Dependendo da personalidade do connoisseur, ele pode passar a diminuir as borrifadas ou simplesmente pensar “Se eu gosto, é isso que importa”. O fato é que, por mais que neguemos, queremos que os outros partilhem da nossa experiência. Faz parte do ser humano ser um pouco voyeur e observar as reações alheias. O connoisseur, que investiu bastante tempo, dinheiro e pele para chegar nesse nível de sensibilidade olfativa, agora se vê numa armadilha da qual não consegue escapar. Não dá para voltar atrás e é impossível fazer com que as outras pessoas consigam sentir o que o nariz dele sente.

end162A arte de criticar perfumes | O dicionário Hoauiss apresenta doze definições para a palavra “crítica” e apenas uma delas tem conotação negativa. Tradicionalmente, crítica é a “arte de avaliar e julgar produção literária, artística ou científica”. A crítica é sempre suscetível à subjetividade de quem critica, podendo ser menos ou mais imparcial, porém nunca isenta de juízo. Fazendo um paralelo com o cinema, críticos profissionais tendem a avaliar além de suas preferências pessoais para poderem examinar a qualidade do filme em si. Outros críticos são mais políticos e preferem abraçar suas inclinações para poder falar diretamente com o seu público. Cada abordagem tem seus prós e contras. Na perfumaria, o mesmo ocorre: há os críticos mais imparciais e os menos imparciais. Os primeiros tendem a conhecer o assunto em profundidade, a ponto de poder julgar se uma fragrância é bem-feita, original e eficiente. Os últimos costumam serem guiados pela paixão por algum gênero ou estilo, levando à exaltação desses e depreciação dos demais. Tais críticos, em particular, também têm seu valor, principalmente em blogs e vlogs, pois criam maior empatia com o público de gosto similar. Críticos mais imparciais podem passar a impressão de serem frios, pois refreiam seu ego na tentativa de fazer uma crítica objetiva. Eles chegam a dar nota máxima a um perfume que pessoalmente detestam, porque julgam que os três critérios principais – conceito, composição e desempenho – estão 100% preenchidos. Conceito é a proposta artística do perfume e como é executada; composição diz respeito à qualidade dos ingredientes usados e do aroma resultante; e desempenho à capacidade de evolução, silagem e lasting. A função do crítico é de clarear atributos, oferecer possibilidades e provocar reflexões. Gosto se discute sim, mas a decisão final caberá sempre ao usuário do perfume.

Veja também: Perfumaria de Massa e Perfumaria de Nicho

30 pensamentos sobre “Minhas Reflexões

  1. Maravilhoso este artigo…….Me identifiquei com o “Não entendo”….Fico encantada com tantas coisas a se explorar em relação aos perfumes…parece que o assunto nunca se esgotará…..

    • Acabei de inserir a última frase: A perfumista critica também o storytelling da pirâmide olfativa (“uma mentira boba e manjada”) – hoje em dia ninguém usa absolutos de rosa e óleo essencial de sândalo, simplesmente porque não são mais necessários.

  2. Adoro o site EgoInVitro! Acho ousado e extremamente informativo! É bastante útil, acessível e muito agradável.
    Adoro seus textos Daniel, muito enriquecedores. Continue com seu trabalho, eu me sinto muito agradecida, e as outras pessoas que usufruem dele também, eu tenho certeza.

  3. Sou fã das suas colocaçoes e de seus videos, e principalmente da sua defesa pela perfumaria como arte e combate a alienaçao e diluiçao que ven acontecendo com o conceito de perfume.

  4. Daniel do céu, a perfumaria tá sendo uma descoberta pra mim, eu nasci no interior e sempre tive o hábito de cheirar tudo, lembro do meu “mau-hábito” de cheirar as folhas de uma pitangueira gigante que tinha na frente do prédio da minha faculdade, para o riso de alguns colegas meus que me julgavam “louco”. Nunca fui de comprar fragrâncias, até porque num país onde o salário mínimo é de 800 reais, uma deocolônia razoável de R$ 100 reais não pode ser nunca chamada de barata (basta pensa que no reino unido achamos um classiquissimo aftershave brut por 3 libras ou 15 reais, melhor que muitas das nossas deocolônias, e talvez melhor que muitas importados carérrimos também) Seu blog e seus vídeos são um ponto de luz dentro da obscuridade de blogs, vlogs e fragrantica; onde todo mundo tá mais preocupado em dizer se é contratipo ou não, do que se e antes de tudo um bom perfume.

    Um sonho? Ver essências de cedro-rosa brasileiro, de araucária, de andiroba, de serigueira, o brasil tem tantos cheiros maravilhosos, temos técnica não é? Talvez só precisemos acabar com a síndrome de vira-lata de empresários e consumidores; afinal quem nos ensinou a tomar banho e usar produtos da natureza pra nos deixar mais bonitos e cheirosos foram os nativos daqui.

  5. Daniel, as revistas e magazines no mundo todo fazem anualmente seleções de perfumes para suas Premiações. Elas também são buscadas por nós consumidores como instrumento de avaliação para a compra de uma fragrância nova, por mais que naturalmente existam fins mercadológicos e de exposição de marcas envolvidos. Poderia escrever um pouco sobre as Premiações de Perfumaria, notadamente o FIFI AWARDS e as duas nacionais que são o ATUALIDADE COSMÉTICA e mais recentemente o ABIHPEC BELEZA BRASIL ? Fique a vontade para cobrir também outros que queria considerar.

    A experimentação in loco na pele segue como principal termômetro sempre, mas na escassez de tempo buscamos materiais que podemos acessar de qualquer lugar como as resenhas, leituras, vídeos e os blogs de profissionais especializados como o seu, capaz de responder com propriedade e esclarecer detalhes.

    Se já tiver feito algum post sobre esse tema, nos indique. Escrever aqui já uma forma de reconhecer e valorizar a qualidade do seu trabalho. Valeu fera!

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