Principais Sintéticos

vanillin2Químicos aromáticos – mais conhecidos por “sintéticos” – são usados na perfumaria desde 1882 e, desde então, têm sido cada vez mais aperfeiçoados para imitar os odores na natureza. Contudo, dificilmente uma molécula artificial será idêntica à natural pois vários componentes restritos são eliminados, muitos deles responsáveis por produzir o aroma natural da matéria-prima in natura. Em geral, além de mais seguros e controláveis, os sintéticos conferem um aspecto mais limpo e contemporâneo às fragrâncias. Além dos descritos abaixo, os sintéticos mais comuns na paleta de um perfumista são: Adoxal (floral fresco), fructone (polpa de fruta), isobutavan (frutado vanílico), linalool (picante fresco), amilo alilo glicolato (picante frutado), melonal (melão/pepino), floralozone (aquático floral), Rhubofix (ruibarbo), stemone (folhas/figo), acetato de vetiveryl (vetiver), helional (feno), Saffraleine (couro suave), castoreum (couro oleoso), kephalis (tabaco ambarado) e civetone (animálico). Os sintéticos com iniciais em maiúsculo são patenteados e podem ser utilizados apenas pela casa de fragrância que os criou.

oCumarina (1868). Este componente da fava tonka foi a mais importante matéria-prima sintética da perfumaria. A cumarina tem um odor quente, macio, amendoado e polvoroso, com nuances de tabaco. Quando combinada a lavanda e musgo de carvalho, forma o acorde fougère clássico; quando isolada, pode formar diversos acordes orientais. Embora o gênero fougère tenha nascido feminino, com o icônico Fougère Royale, acabou tendo um destino mais masculino e aromático. O papel da cumarina nos fougères é trazer sensualidade a composições frescas com notas cítricas, lavanda, gerânio, musgo de carvalho, patchouli e vetiver.

cHeliotropina (1869). A maceração ou enfleurage de pétalas da flor de heliotrópio, além de serem processos caros, são ineficientes na captura do odor natural. Assim, a heliotropina é uma derivação artificial do óleo de sassafrás, usado há décadas para aromatizar perfumes. Seu aspecto é polvoroso, doce e amendoado como marzipã e confere uma aura de relaxamento e tranquilidade. A heliotropina é usada tanto para dar um toque quente e sensual em fragrâncias orientais como produzir um aroma de cereja nos florais frutados. Recentemente se tornou bastante popular devido à tendência dos gourmands. Seu uso é restrito.

eVanilina (1877). Este sintético causou um furor na perfumaria, pois o óleo essencial de baunilha é de difícil e cara extração. A vanilina possibilitou o surgimento do gênero oriental e de perfumes opulentos com grande projeção e fixação. Seu aspecto é quente, doce, ambarado e polvoroso. A Guerlain foi a primeira casa que tirou proveito da invenção da cumarina e vanilina para criar seu acorde DNA – a guerlinade – junto com bergamota, rosa, jasmim e íris e lançar perfumes legendários como Jicky, Shalimar e Habit Rouge. A vanilina trouxe a aura hedonista às fragrâncias. Existe na variação etil vanilina, dez vezes mais potente.

nIsobutilquinoleína (1880). Criado para imitar o odor marcante, sofisticado e animálico do couro, a isobutilquinoleína invoca o aroma da bétula e do óleo de cade. Com aspecto agressivo e queimado, quase como curto-circuito, é usado principalmente para compor fragrâncias à base de couro femininas e masculinas como os ícones Bandit, Cabochard, Antaeus e Bel Ami. A isobutilquinoleína é frequentemente combinada a estoraque e labdanum e hoje compete com a Saffraleine – molécula derivada do açafrão – para ser o ingrediente principal da nota fantasia de couro, já que a nova geração prefere perfumes mais suaves.

FotorCreatedIononas (1898). Com seu aroma próximo ao da violeta, as iononas conferem traços fresco, atalcado, frutado e amadeirado, lembrando um pouco íris e lilás. É uma molécula crucial para as composições florais, trazendo classe e suavidade e remetendo a maquiagem. Quando isolada pela primeira vez, as iononas promoveram uma febre de colônias com o tema de violeta na virada do século XX. Em 1992 Jean Claude-Ellena teve a ideia de combinar iononas com hedione, resultando no aroma cítrico-floral de chá verde em seu Eau Parfumée au Thé Vert – uma perfeita união de sofisticação (iononas) com brilho (hedione e bergamota).

fEvernyl (1898). O musgo de carvalho é uma das matérias-primas mais importantes da perfumaria por constituir os acordes fougère e chipre. Desta forma, desde que foi sintetizado em 1898, o evernyl tenta reproduzir o odor úmido, suave e amadeirado que remete a floresta depois da chuva. Fragrâncias com nota marcante de musgo de carvalho começaram a ficar populares nos anos 20 e tiveram seu ápice nos anos 70 e 80. Com as restrições sanitárias, perfumistas foram obrigados e atenuar seu uso, saindo assim da moda. Este é um bom exemplo de sintético que não é 100% seguro e que pode causar dermatites de contato.

iSalicilatos (1898). Seja de benzila, metila ou amilo, os salicilatos proporcionam às fragrâncias uma atmosfera ampliada. Ou seja, composições ricas nestes ingredientes irradiam o aroma, conferindo dinamismo na difusão. Seu mais famoso exemplo é L’Air du Temps, versão original. O salicilato de benzila tem um odor floral adocicado que funciona como base para florais bomba, além de produtos funcionais, trazendo substância e profundidade. Já o salicilato de metila possui um traço mais herbáceo e canforado, funcionando bem com couro. Finalmente, o aroma de salicilato de amilo se situa entre orquídea e ervas. Seu uso é restrito.

dAldeídos (1903). Mais uma revolução na perfumaria, os aldeídos trouxeram um aroma bem distante da natureza. Diferente dos outros componentes sintéticos que cumpriam com a missão de imitar um odor natural, os aldeídos vieram para trazer luminosidade e vivacidade a notas delicadas como as florais. Tidos como os componentes surrealistas da perfumaria da época, eles foram responsáveis pelo efeito artificial de limpeza do Chanel No. 5. O grande sucesso dos aldeídos fez com que seu uso fosse adotado largamente em sabonetes e hidratantes devido à sensação de cuidado e maciez – o tal do efeito soapy.

hHidroxicitronelal (1908). Para se reproduzir a nota de lírio-de-vale, combinam-se cítricos, jasmim e flor de laranjeira, ou usa-se hidroxicitronelal. Este sintético (também conhecido como Lyral ou Lilial) foi concebido para reproduzir o odor do muguê ou lírio-do-vale, um dos mais utilizados na perfumaria. Muitos perfumistas aproveitaram o hidroxicitronelal para combiná-lo a aldeídos e criar um super-buquê feminino e radiante como Quelques Fleurs e Diorissimo ou um super-fougère como Paco Rabanne pour Homme. Seu efeito invocava as manhãs frescas e energizantes da primavera, além de conferir uma aura romântica num encontro noturno.

mGamma undecalactone (1908). Com exceção das frutas cítricas (cujo óleo essencial é extraído das cascas), não é plausível se extrair o aroma de frutas. A síntese do gamma undecalatone (também conhecido como aldeído C14) enfim possibilitou o odor frutado em perfumes. A molécula tem um odor inebriante de pêssego ou damasco e começou a ser utilizada para compor chipres frutados. O primeiro grande perfume que conteve o aldeído C14 foi Mitsouko, com sua grande imponência e silagem. Décadas depois Rochas lançou seu ícone Femme, combinando o gamma undecalactone com prunol (ameixa), resultando num efeito majestoso.

FotorCreatedNitromusks (1950). Um dos maiores motivos da perda de performance dos perfumes contemporâneos com relação aos vintages é o banimento dos nitromusks, que conseguiam garantir a projeção e segurar a fixação do perfume. Desta forma, sua funcionalidade era mais importante do que seu odor em si (um fundo polvoroso confortável e sensual). Os nitromusks, imitando os almíscares naturais, faziam a transição entre fragrância e pele, maximizando as propriedades do líquido. Hoje foram extintos e substituídos pelos inofensivos musks brancos ou policíclicos em quantidades bastante elevadas nas reformulações ou novos lançamentos.

xAmbroxan (1956). Impossível desconhecer este componente pois ele está onipresente nos elevadores Brasil a fora. O ambroxan é a matéria-prima principal de Light Blue – cujo sucesso é tão grande que seu aroma já se encontra em produtos de limpeza e aromatizadores de ambiente. Na época em que foi sintetizado a ideia era ser um substituto para o caríssimo e extinto âmbar gris, porém o ambroxan é uma versão mais limpa. Devido à sua textura aveludada e levemente salgada, este sintético se funde bem com a pele e proporciona excelente desempenho. Tem sido um dos materiais mais usados como base de composições.

jDihidromircenol (1956). Com o sucesso do gênero fougère na perfumaria masculina, surgiu a necessidade de se inventar uma molécula que simplificasse e reunisse os componentes necessários. Assim, o dihidromircenol produz o efeito de refrescância e limpeza de uma fragrância aromática masculina, numa mistura de notas cítricas, especiadas, lavanda, cedro, musgo de carvalho e cumarina. Este componente é fundamental nos perfumes sport por trazer a sensação de frescor efervescente, quase funcional. O dihidromircenol confere uma aura de higiene e cuidado, o que muitas vezes serve de desculpa para homem usar perfume.

sHedione (1962). Estudiosos afirmam que existe sim um componente afrodisíaco na perfumaria e o seu nome é hedione. Presente em estado natural no jasmim, o hedione é a molécula responsável pelo odor radiante da flor. Além de seu fundo de jasmim, ela contém traços frescos e suaves de frutas cítricas. Assim como os aldeídos têm a função de trazer um aspecto tridimensional às flores, o hedione faz o mesmo para os cítricos, e é considerado um transportador de aromas devido à sua grande capacidade de projeção. Graças a ele, Edmond Roudnitska criou o primeiro perfume cítrico potente da história – Eau Sauvage.

kGalaxolide (1965). Amplamente utilizado na perfumaria, este musk policíclico tem um odor atalcado e frutado, levemente amadeirado, remetendo a violeta e frutas vermelhas. Quando do seu lançamento, este componente ganhou popularidade nos sabões e amaciantes de roupas, com uma porcentagem de 30 a 40%. Com grande tenacidade e potência, o galaxolide foi amplamente utilizado na perfumaria por Sophia Grojsman para compor Trésor – um floral oriental imponente com traços frutados marcantes. Já de forma mais leve, Alberto Morillas tambem fez uso do sintético para criar CK One – um cítrico floral andrógino.

zEtil maltol (1969). O mundo dos aromas se divide em fragrâncias e sabores, e eles raramente se cruzam. Porém isso aconteceu uma vez quando Thierry Mugler encomendou a Olivier Cresp um perfume que invocasse algodão doce. A molécula que confere o aroma da referida guloseima é o etil maltol – inventado décadas atrás, porém nunca usado em perfumes. Este componente tem um odor de caramelo com nuances de frutas vermelhas e remete à infância, ou seja, ao acolhimento e conforto ou, às vezes, à sensualidade. No princípio rejeitados, perfumes à base de etil maltol hoje são uma febre e conhecidos como gourmands.

vIso E Super (1970). Uma das moléculas mais presentes em fragrâncias contemporâneas, o Iso E Super é uma nota quente, seca e confortável, remetendo a cedro. O Iso E Super é ideal como base para perfumes masculinos devido à sua ótima substancialidade e longevidade, daí o seu recente sucesso e popularidade (muitos acreditam agir como um feromônio). Por outro lado, por ser de coloração quase transparente, o Iso E Super é utilizado em diversos produtos funcionais como alvejante, desodorante, xampu, sabão e amaciante para roupas. Acaba servindo mais para dar volume ao perfume do que propriamente um aroma.

gCashmeran (1970). Este é um sintético que reproduz o aroma da nota fantasia da madeira de caxemira. Seu odor é complexo com nuances especiada, frutada, chipre, balsâmica e resinada. Tudo isso para criar o aspecto amadeirado macio e delicado semelhante ao do tecido. Um dos primeiros ícones ricos em cashmeran foi LouLou. Hoje existem inúmeros perfumes com “cashmeran” no nome sem, no entanto, conter o componente. Por ser insolúvel em água, cashmeran é comumente empregado em fórmulas de sabões e amaciantes de roupas, desodorantes, xampus e loções para o corpo.

FotorCreatedCalone (1974). O calone foi mais uma revolução na perfumaria ao conseguir recriar o aspecto de brisa oceânica, sintetizando o melhor ângulo do aroma das algas marinhas. Sozinho, o calone tem odor ozônico parecido com gás de geladeira ou ar condicionado. Porém, quando adicionado a composições aromáticas e/ou amadeiradas (tipicamente masculinas), confere um ar translúcido e casual, como a sensação de estar de férias. Calone serve também para criar o aroma de melão ou melancia em perfumes frutados. A primeira fragrância que levou grande quantidade de calone foi New West, mas quem realmente virou ícone foi L’Eau d’Issey.

pDamasconas (1977). Imagine uma mistura do cheiro de rosa e damasco – assim são as damasconas. Estas moléculas foram intensamente usadas nos anos 80 para criar um efeito de floral opulento à base de rosas com um lado frutado escuro, misterioso. As damasconas também são um componente importante por sua capacidade de silagem e perseverança. Um grande exemplo de fragrância com grande quantidade de damasconas é Paris – um floral fresco, elegante e clássico – até hoje referência de buquê à base de rosa. Hoje as damasconas estão em desuso devido à recém-descoberta de que são fotossensíveis.

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